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Jorge
Wilheim
(Secretário de Planejamento Urbano do Município de São Paulo)
A intensificação dos problemas da exclusão social devido à globalização
que marcou a virada do século coloca para os prefeitos a necessidade
de enfrentar as tensões sociais. Este enfrentamento leva a busca
de novas práticas de planejamento e a novas metodologias de elaboração
de planos, que têm de responder ao que prever e como prover os seus
meios de execução. Leva também a uma visão estratégica com diretrizes
de longo prazo e a ações práticas de curto prazo, gerando mudanças
na maneira de desenvolver planos, conforme se viu na recente experiência
de elaborar o Plano Diretor Estratégico de São Paulo 2001/2010.
Hermes Binner
(Prefeito de Rosário, Argentina)
As políticas neoliberais criaram crises superpostas econômica, social
e principalmente política. No caso argentino, levaram à dificuldade
de construir uma país integrado com o Mercosul, bem como colocaram
novas tarefas para os governos locais.
A Globalização neoliberal teve um impacto especial sobre a América
Latina - fragmentando as cidades e agravando o problema da inclusão
social. Bairros segregados, cidades duais tornam imprescindível
a necessidade de as autoridades locais garantirem a inclusão social
e trazem como marca para os governos progressistas a tolerância,
o pluralismo, e o aprendizado de negociar conflitos. Portanto, a
atitude das cidades é fundamental para construir a inclusão social.
A concentração funcional nas cidades, um fenômeno da globalização,
impõe o resgate do espaço público como um conjunto de normas que
regula a cidadania e transforma o planejamento Urbano em uma ferramenta
para a inclusão social, com as seguintes questões fundamentais:
1) Modernização do Estado: afirmação da democracia participativa,
programas de descentralização de gestão. Caso de "Rosário" onde
foram criadas 6 Áreas de planejamento participativo.
2) Plano Estratégico: que alcance o interesse majoritário em um
novo contrato social.
3) Pressupostos: maior participação dos cidadãos e das instituições.
4) Promoção da igualdade por meio de rede de Saúde e de Apoio Social,
Rede Habitat para a urbanização de vilas miseráveis e emancipação
dos seus habitantes para construção de identidades.
5) Direito ao trabalho: todos devem ter direito ao trabalho. Cidades
gerando respostas para as necessidades individuais de seus habitantes.
6) Incorporação dos setores sociais, inclusão das crianças, dos
velhos e todos no planejamento urbano.
As cidades da globalização neoliberal constituem, portanto, o cenário
da transformação, múltiplos centros de conhecimento para gerar o
planejamento urbano com a inclusão social, por meio do:
- Associativismo entre cidades na busca de diagnósticos e soluções
comuns;
- Estratégias comuns em redes para lutar pela inclusão social;
- Cooperação horizontal;
Ou seja, gerar um compromisso econômico e social contra o modelo
neoliberal baseado apenas na busca da eficiência econômica e do
controle fiscal.
Angela Amim
(Prefeita de Florianópolis - SC)
Em Florianópolis, no início do meu governo, o meu primeiro desafio
foi o índice de mortalidade infantil, que atingia os 21,6%, com
curva ascendente, o que levou a atenção à saúde no município ser
redirecionada para a criança e para a gestante (município com Gestão
semiplena do SUDS). Como resultado a mortalidade foi reduzida de
21,6 para 8,4%.
Em nossa nova visão da Administração Pública, as mudanças não são
apenas de origem ideológica, mas vêm das próprias exigências sociais.
Visamos um governo para servir e voltado para a prosperidade, a
ética, a inclusão, a segurança e a sustentabilidade do desenvolvimento.
Neste último aspecto, vale ressaltar que Florianópolis tem 42% de
áreas de preservação permanente, com recursos fundamentais para
o turismo.
Acreditamos na construção de políticas públicas voltadas a inclusão
social, justiça social, desenvolvimento econômico e proteção ambiental,
incluídos num Plano Diretor, que é peça fundamental nesta nova visão,
um plano que não é estanque, como instrumento de gestão pública.
É necessário um planejamento estratégico da cidade; com Planos Diretores
inclusive para áreas que não eram abordadas anteriormente, como
a inclusão social e a questão habitacional.
Em particular, sempre enfatizamos a necessidade de implantar uma
política habitacional do município de Florianópolis, não deixando
isso apenas no nível estadual. Como resultado, 1.111 residências
foram construídas no período de 1997/2001. Esta política, não se
restringia apenas à residência, mas a todos os demais aspectos da
inclusão, a exemplo do HABITAR Brasil BID.
A necessidade de urbanização nas cidades foram ampliadas com a transformação
do país de rural em urbano. Mas há muitos problemas a serem enfrentados.
Em geral o custo da terra é um complicador, bem como os problemas
ambientais e os de ocupação irregular de áreas, migrações e geração
de bolsões de pobreza, e com a degradação da vida nas cidades.
Em Florianópolis, uma das soluções foi a aplicação do Habitar Brasil
BID, a criação de agentes de saúde, programa para o planejamento
social e da área da saúde, com ênfase para a inclusão da criança,
buscando:
- Capacitar institucionalmente o governo em todos os níveis para
enfrentar os problemas do processo de urbanização.
- Trabalhar a estrutura administrativa da prefeitura para o enfrentamento
desta nova política condizente com as necessidades atuais.
- Urbanização real dos assentamentos precários locais.
Em Florianópolis, foi definido o documento da política habitacional
em um ano e meio de governo, o sub-programa de Urbanização de Assentamentos,
que inclui regularização fundiária e infra-estrutura de urbanização,
e seqüência de acompanhamento social. A exemplo da urbanização da
comunidade Chico Mendes, com a criação de alojamentos provisórios
no centro da área - que será o futuro centro social da comunidade.
Até o ano 2000 foram aplicados R$ 9 milhões, por meio do Habitar
Brasil BID em Florianópolis. R$ 6 milhões do Governo federal e 2,7
milhões do município, com a construção de equipamentos sociais,
creches, centros comunitários e centros de atividades econômicas.
Foi implantado o geoprocessamento de toda a cidade de Florianópolis,
para controlar e priorizar os trabalhos, integrar as informações
em banco de dados de saúde e habitação, otimizado para toda a administração,
portanto, geoprocessamento como ferramenta fundamental de gestão.
Também criamos o Conselho de Habitação, vinculado ao Gabinete da
Prefeita, para integrar ações da Prefeitura municipal, numa estrutura
horizontal, não estanque entre as ações do município, e exigindo
uma modernização administrativa.
Herminia Maricato
(Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
de São Paulo)
Em vez de uma discussão técnica sobre Planos Diretores proponho
uma reflexão sobre nossa inserção na economia global e sobre como
fazer planejamento neste contexto, analisando o impacto da reestruturação
produtiva nas metrópoles periféricas.
Estamos numa fase em que a glamurização da globalização está fazendo
água, assim como o engodo do consenso de Washington, em que a Argentina
é o exemplo mais crítico da destruição de um país quase de Primeiro
mundo, com indicadores sociais historicamente melhores que os do
Brasil. No Brasil, homens de 14 a 30 anos têm um grave problema
de expectativa de vida devido à violência urbana.
O processo de urbanização, que teve aspectos positivos, agora leva
à crise, com o enfraquecimento das lutas sociais e sindicais. A
política habitacional que era uma política sistêmica até 1980, embora
com subsídios para a classe média, foi sendo abandonada. A concentração
de poder se aprofunda, com a especulação com os ativos brasileiros,
o risco Brasil, etc. Precisamos de uma nova ordem global menos cruel.
Há uma base desigual entre países e regiões e dentro das cidades.
São Paulo com um recorde de desemprego, com 2 milhões de desempregados,
está em uma crise de segurança pública. Nossos problemas não começaram
com a globalização pois não temos a universalidade dos direitos
sociais garantida historicamente.
Na questão urbana os países centrais têm infra-estrutura, reforma
fundiária e função social da propriedade garantida. No Brasil temos
o arcaico no campo e na cidade, a especulação fundiária e a ausência
de mercado capitalista "real" funcionando, com os investimentos
urbanos concentrados em um sistema de produção pré-moderno, pré
século XIX. Reforma fundiária travada, financiamento fundiário restrito
e cadeia produtiva retardada.
Portanto, temos uma condição diferente de desenvolvimento urbano,
mesmo comparado aos guetos urbanos das cidades do primeiro mundo.
Em contrapartida temos como solução o urbanismo fashion, copiado
de países onde os problemas sociais são diferentes, a ser aplicado
nas nossas ilhas de Primeiro mundo, enquanto as periferias permanecem
abandonadas.
Temos legislações de zoneamento e meio ambiente ultra-detalhistas,
para serem aplicadas nas cidades da "Vejinha", da "visibilidade".
Temos em nossas cidades um ambiente construído sem lei, sem controle
urbanístico, uma gigantesca ilegalidade, uma representação ideológica
da cidade, urbanismo das idéias fora do lugar, onde o controle e
o poder de polícia não é para os urbanistas mas para o andar de
baixo, enquanto a agressão ambiental é barbara!
Citando a obra "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda,
"somos homens de leis e de letras", daí a importância de mostrar
fatos. Por exemplo, o caso dos dois reservatórios usados para o
abastecimento de água em São Paulo, Billings e Guarapiranga, eles
não tem preço, mas estão sendo perdidos devido à ocupação ilegal
e clandestina de suas margens. Com uma ocupação de cerca de 650.000
habitantes na Bacia do Guarapiranga e 750.000 habitantes na Bacia
Billings, como demonstram teses de mestrado e o cadastro territorial
de uso do solo da SEMPLA do município de São Paulo.
Desta forma, não vai ser o BID (Programa Habitar Brasil), nem as
Operações Urbanas que vão mudar este quadro, mas o controle da propriedade
privada, o redirecionamento dos financiamentos em urbanização para
a população de baixa renda.
Trabalhamos com uma legislação urbanística dirigida para o mercado
imobiliário, excludente, mas, temos novos instrumentos para coibir
a propriedade ociosa, com o Estatuto da Cidade, e o que precisamos
é virar o jogo e contrariar os que estão ganhando com esta situação
nas cidades.
Não vamos reverter a situação sem o planejamento urbano, mas temos
que reorientar os investimentos financeiros, combater o centralismo
e a privatização da esfera pública, temos que fazer a "inclusão
política", o urbanismo includente. Quem discute o Plano Diretor?
Representantes do Mercado imobiliário, técnicos e classe média urbana...
O crescimento da periferia e o esvaziamento dos bairros centrais
em São Paulo e no Rio de Janeiro foram confirmados por estudos recentes
e a conseqüência é a ocupação das franjas periféricas, como demonstram
os casos Billings e Guarapiranga.
Portanto, não é por falta de lei nem por falta de qualidade paisagística,
que é grande nestas represas, com grande potencial de lazer. A elite
é burra vive às margens de um canal de esgotos no rio Pinheiros
e deixa as represas para os loteamentos clandestinos. Em Curitiba,
as ocupações ilegais estão no entorno da cidade. Enquanto o marketing
fala da Cidade da Ópera de Arame, as áreas de mananciais do Iguaçu
são invadidas.
O financiamento para habitação no Brasil é apenas para quem tem
doze salários, desta forma a maioria da população brasileira não
tem acesso a moradia, as políticas públicas não chegam a atingir
quem ganha cinco ou seis salários mínimos, e assim a maioria da
população nas cidades invade terras, isto porque não se fazem invasões
na cidade, valorizada pelo mercado, mas nas áreas de proteção ambiental.
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