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Gestão municipal: novas institucionalidades para o desenvolvimento da pequena e média empresa


7 de junho de 2002, 14h30


Jorge Luís Abrahão
(Coordenador do Fórum Empresarial de Apoio à Cidade de São Paulo e do CIVES - Associação Brasileira de Empresários pela Cidadania)

O crescimento globalizado tem trazido dificuldade para pequenas e médias empresas, gerando pobreza e desigualdade. Para os municípios melhorarem a qualidade de vida da população e as condições para os negócios, os governos não devem esperar soluções nacionais. O fomento à pequena e média empresa gera mais emprego, e não concentra, distribui.

Nos dois Fóruns Sociais Mundiais, o tema esteve também presente. Numa reunião internacional com predomínio de empresários da América Latina, foram debatidos mecanismos de defesa, para combater o peso dos grandes grupos econômicos. A questão legal também foi debatida, pela necessidade de uma legislação que possa contribuir para o fortalecimento da pequena e média empresa, para a democratização das licitações.

Políticas de crédito com isonomia, assim como o associativismo, também devem ser estimulados. Há vários itens em que a gestão municipal e as associações podem avançar. É necessária uma visão mais generosa que contemple todas as dimensões da atividade das empresas, o que elas agregam para a sociedade, não apenas para o mercado. Distribuição de renda, satisfação dos clientes, redução da centralização, fazem bem à sociedade.

As medidas nesta área podem incluir a criação de secretarias específicas, de instituições comunitárias de crédito, assim como fóruns empresariais, como o que a Prefeitura Municipal de São Paulo criou. A prefeitura não consegue atender todas as demandas da sociedade, e os empresários se movimentam na questão da responsabilidade social. A questão é como ordenar o investimento empresarial nas questões prioritárias. No Fórum, a prefeitura coloca prioridades não contempladas e proporciona opções para que o investimento empresarial seja canalizado para ações que contribuam na qualidade de vida da população. As empresas que participam ganham um selo dizendo que ajudam a cidade e agregarão isso à sua marca.

Este é um exemplo que mostra que o governo municipal pode combinar a atração ao investimento e o estímulo à multiplicação de micro, pequenas e médias empresas. É necessário investir nestes setores, que geram mais empregos. Os grandes empreendimentos podem conviver com os pequenos. Desenvolvimento econômico pode assim contribuir no combate à pobreza.


João Alberto Capiberibe
(Governador do Amapá, Brasil)

O Estado deve e pode promover a expansão das pequenas e médias empresas, usando o orçamento público, mas isso coloca a necessidade de rupturas. O orçamento do Amapá, para os paulistas, precisa ser multiplicado muitas vezes, temos uma população de 500 mil habitantes, São Paulo de 36. milhões. Nosso projeto de governo se baseava na Agenda 21, no desenvolvimento sustentável com equidade social, e isso serve de critério para selecionar projetos.

Temos conflito sobre a expansão de fronteiras agrícolas com o governo federal, evitamos a introdução da soja, assim como o investimento de madeireiros da Malásia. Há confronto, todas as vezes que não se estende um tapete vermelho para o grande capital. O Estado deve ser o indutor do desenvolvimento, mas para isso tem de deixar de cumprir as receitas das políticas neoliberais.

Há sete anos estamos na contramão dessas políticas, com resultados concretos, mas para isso temos que derrubar velhas instituições, que em tese deveriam atender à população. Em 1995, quando assumimos, o estado gastava 194 milhões, até hoje não conseguimos localizar onde foi feito este investimento.

Quando assumimos, o Legislativo e o Judiciário deram um golpe institucional, aumento as transferências a serem feitas para estes poderes de 57 milhões para 121 milhões. Isso nos levou a estudar a maneira mais eficiente de controlar os gastos públicos feitos no Executivo, porque não temos poder para fazer as demais instituições prestarem contas. Ainda é segredo como o Judiciário gasta o dinheiro do contribuinte. A Assembléia Legislativa do Amapá, com 24 deputados, gasta R$ 4 milhões por mês (R$ 170 mil por deputado).

Atingimos o equilibro orçamentário a partir de 1997, temos responsabilidade fiscal muito antes da lei. Melhoramos a arrecadação, combatendo as centenas de mecanismos cotidianamente utilizados de transferência de recursos dos pobres para os ricos, perpetuando a desigualdade social.

Nossas fontes de arrecadação, assim como os gastos, a distribuição das despesas, estão disponíveis pela internet. No Brasil, geralmente os orçamentos são peças de ficção. No nosso caso, hoje chegamos a executar 97% do orçado, o que mostra que é o orçamento é real. Além disso, liquidamos mais de 99% das despesas no ano.

Os repasses para os municípios também podem ser acompanhados pela internet. É possível consultar o detalhamento das despesas: por exemplo, ao ver na Secretaria de Infra-estrutura um empenho de R$ 400 mil pode-se verificar que se refere à construção de uma escola estadual. Assim, os moradores do bairro passam a acompanhar a construção da obra. Desse modo evitamos o que ocorre em alguns casos com recursos federais como, por exemplo, os que foram liberados para a prefeitura do Oiapoque para abastecimento de água em uma aldeia indígena. O dinheiro sumiu, a água não apareceu.

Hoje no Amapá não há nenhuma compra, nenhum contrato que não seja absolutamente público. Estamos distribuindo antenas ligadas a satélites para todos os municípios para que essas informação possam realmente ser acessada por todos. Como resultado da modernização do Estado e da transparência, a arrecadação estadual saltou de 34 para 139 milhões. Houve uma melhoria salarial, os professores e médicos hoje têm os melhores salários do país. O professor pode ganhar uma gratificação de até 40% para atuar no interior.

O crescimento da economia estadual foi de 56% nos anos 90, o da região Norte, de 54 %, o do Brasil, de 26%. A população do estado cresceu mais de 40% na década passada. Ainda temos uma taxa de 5 a 7% de crescimento populacional anual, devido à migração. Temos um Banco do Povo (AFAP), a instituição financeira que mais oferece crédito no estado, com uma taxa de inadimplência de apenas 2%.

Reduzimos o analfabetismo de 18 para 11,2%, aumentamos o percentual de crianças em idade escolar na escola de 86,62% para 98,31%, apesar dos altos custos, conta das distâncias. A construção de salas de aula dobrou. Temos um programa de assistência social que paga meio salário mínimo a 10.000 famílias (10% do total do estado). Ampliamos também a rede de saúde e tivemos uma redução recorde da mortalidade infantil, segundo dados do Datasus de 1998.

Ampliamos também a rede de energia, duplicando na área rural. Hoje temos um dos maiores consumos per capita de energia elétrica do país. Ampliamos a rede de água, mas a produção de água cresceu mais ainda. Antes a tubulação aumentava, mas a água não chegava. Os investimento na rede de esgoto também foram ampliados. O investimento geral em infra-estrutura cresceu de 14 milhões para 124 milhões durante as duas gestões.

Com a descentralização, encurta-se a intermediação entre o contribuinte e a aplicação do dinheiro. A rapidez faz o investimento ser mais eficaz. Na educação, atualmente, só centralizamos o pagamento do professor. As verbas de manutenção, da merenda, todas caem na conta da Caixa Escolar.

Estes dados mostram uma melhoria significativa da vida coletiva. Mas para se criar novas institucionalidades, é necessário romper com as velhas, organizar a população para que passe a controlar a gestão pública. Na medida em que a sociedade passe a controlar, a função de algumas instituições deve ser revista.

Os dados apresentados nesta exposição são do IBGE, não do governo do estado. Como fui um governador de oposição por dois mandatos, não há suspeita de que o IBGE possa estar me favorecendo. Mantivemos nossa proposta de conservar o patrimônio ambiental e promover a equidade social. Deixamos o governo com 82 milhões em caixa, contas pagas e 78% de aprovação, mas respondo a 400 processos pela "quebra das instituições", a maioria deles em função do repasse direto de recursos às comunidades.


Sérgio Moreira
(Presidente do SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas)

Temos que preparar institucionalidades para a regra, que não é a do bom governante, mas a daqueles que, por má-fé ou despreparo para lidar com gestão, são maus governantes. A sociedade deve saber lidar com eles. Hoje os espaços para dilapidar recursos são menores, mas ainda existem. Há municípios que podem produzir riquezas do nada, mas há também a esterilização abundante de recursos públicos.

Algumas sociedades conseguem responder aos agentes públicos que não têm compromisso como a coisa pública. O Brasil tem mais de 5.500 municípios, grande parte pela indústria de criação de municípios. Alguns estados dobraram recentemente o número para aumentar sua fatia do Fundo de Participação dos Municípios.

Nos últimos três anos o SEBRAE tem se orientado por grandes estratégias de país, não apenas de governo. Buscamos a criação de um ambiente favorável à pequena produção, à pequena empresa, que cria oportunidades de geração de renda. Os pequenos negócios são os que mais ganham com a inclusão social. Isso é uma imposição da realidade e uma responsabilidade social. Segundo o professor Ignacy Sachs, o Brasil tem três prioridades: gerar empregos, gerar empregos e gerar empregos.

O país foi competente para crescer, mas gerou desigualdades. 44% dos empregos formais são gerados por 40 mil pequenas e médias empresas, que também constituem toda a economia informal, respondendo por 96% dos empregos criados. Isso não é diferente da realidade mundial.

A guerra fiscal é um absurdo, em muitos casos, o Estado dá terreno, formação de mão de obra, renúncia fiscal e parte do capital para investimentos de grandes corporações internacionais. Na área rural, temos 4.000.000 de unidades produtivas familiares. Nossa situação é semelhante à Itália de 30 a 40 anos atrás, que tinha um governo a cada ano, poucas grandes empresas, desigualdades, economia subterrânea. Brasil tem tudo para não ser os EUA, mas poderia ser uma grande Itália.

O Brasil é um dos países que mais empreendem no mundo. Os pequenos empregadores são distribuidores de renda, de justiça social. Eles sofrem com a globalização, mas há brechas que permitem acesso a conhecimento e a mercados para os pequenos, nichos que podem ser atacados. O sucesso de pequenas empresas não depende apenas do talento do empreendedor, mas de um ambiente favorável, que deve se criar ainda que à revelia do governante, mas exige uma nova institucionalidade.

No SEBRAE, concebemos este ambiente como a combinação de elementos do "território" (instituições de apoio/associações de classe; poder público; empreendedores; ONGs) de um lado, e do "mercado" (Marketing; comercialização; design, logística) de outro. O território pode ser um bairro, uma bacia hidrográfica, qualquer base terrritorial criada natural ou artificialmente. A Sudene ajudou a criar o conceito de Nordeste, que hoje identifica os habitantes daquela região mais do que o estado natal de cada um deles.

Temos que pensar em termos de formação de capital social. A Argentina, no século passado, foi o único país a ser considerado como quase desenvolvido e terminar subdesenvolvido. Eles tiveram uma reforma educacional cedo, tinham índices culturais excelentes, tiveram um aumento do capital humano que não ampliou o capital social, a capacidade de cooperação. Precisamos de competição, mas também de cooperação.

Por isso é necessário dar enfoque ao associativismo. A pequena empresa não tem futuro de forma isolada. Por exemplo, há vinte anos atrás era possível ter vida digna, educar filhos com uma pequena farmácia. Hoje não é possível se ela estiver isolada. Se estiver em uma rede de compra, uma rede de marca e de promoção, ela compete em melhores condições do que a grande, porque damos preferência por comprar de alguém que nos conheça, com tratamento pessoal, especificidade.

Os ambientes favoráveis criam também espaços de cooperação. O espaço do poder público é ilimitado do ponto de vista da criatividade, mas limitado do ponto de vista orçamentário. É necessário criar instituições sem caráter lucrativo mas que trabalhem em benefício da produção. Outro exemplo italiano: o presunto de Parma ou o queijo parmesão pertencem à comunidade, nesses casos o privado também é público.

As redes de pequena produção, por vezes à revelia do poder público, elevam o capital social. Há milhões de oriundi no Brasil, porque várias regiões da Itália, como o Vêneto eram exportadoras de mão-de-obra, hoje é a região mais desenvolvida do país. Grandes cidades italianas, como Turim tem desemprego de 10%, mas as regiões de pequena produção tem apenas 2%. As vantagens competitivas dos pequenos aparecem quando se cria um instituto tecnológico, um instituto de microcrédito, se forma uma comunidade, que resulta em confiança, em colaboração.

Vários programas do SEBRAE estão voltados a criar novas institucionalidades. Em alguns deles, temos a opção de trabalhar em municípios com o mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano. Um destes programas é o prêmio Mário Covas para o prefeito empreendedor. Ele promove a inclusão social, e confere o selo "prefeitura empreendedora". Um exemplo é o de Aracati, Ceará, que dependia da pesca da lagosta. Com o esgotamento da pesca no Nordeste, a prefeitura identificou a necessidade de ações de diversificação da economia local, estabelecendo parcerias para implementar cada uma delas.

Podemos analisar também um exemplo de ambiente favorável e defesa da sociedade. Em Santa Cruz do Capibaribe, no semi-árido pernambucano, perto de Caruaru, o rio que dá nome à cidade é apenas um filete de água. Há 30 anos, a cidade tinha 30 mil habitantes, vivia do Fundo de Participação dos Municípios e do Funrural. Um caminhoneiro trazia restos de elanca para duas ou três famílias que passaram a fazer colchas de retalho e as vendiam duas vezes por semana, uma em Caruaru e outra em Recife, numa feira conhecida como a feira da "Sulanca". Durante muito tempo, eles só tiveram do Estado a omissão, inclusive a omissão fiscal. Hoje, a cidade tem 60 mil habitantes, o desemprego é zero. Há 20.000 empresas, 8.000 pontos de venda, e surgiram ramificações em cidades próximas, fábricas de jeans, outras indústrias de confecção.

O que estes pequenos empresários precisam é de apoio para ligar o mercado local a mercados internacionais. O pimentão orgânico de Alagoas pode abastecer um mercado de Londres, se houver um contato. O pobre deve produzir para os ricos, para mercados exigentes, que compram cada vez mais conceitos, cada vez menos produtos. Por exemplo, um tomate orgânico, produzido na Amazônia, colaborando para manter floresta, produzido por índios adolescentes, agrega muito valor à sua "marca"...

A novidade para o poder público local não é prestar serviços básicos, mas propiciar um ambiente favorável ao pequeno empreendimento. A empresa, que é uma concessão do público, precisa ter responsabilidade social, e fará isso sempre que houver apoio. Um exemplo recente foi o projeto SIMPLES, que simplificou o pagamento de vários impostos federais e "legalizou" a atividade de mais de 3 milhões de pessoas.


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