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Dieter
Benecke
(Diretor da Fundação Konrad Adenauer, Alemanha)
Diante da globalização, que "economizou" o mundo, seriam os municípios
o último refúgio para o desenvolvimento da política cultural? Como
lidar com as graves restrições financeiras que afetam os países
e, consequentemente, os municípios latino-americanos.
O tema em questão oferece e requer quatro aspectos de análise:
1-O Estado é necessário para promoção da cultura?
2-Qual a importância da cultura para o desenvolvimento?
3-Como os municípios podem financiar as atividades culturais?
4-Qual a capacidade de um município desenhar uma política cultural?
Ponto 1:
Acredito não ser verdadeira a idéia de que a Cultura somente pode
desenvolver-se plenamente numa situação de abundância econômica.
A arte sempre nasce da pessoa, não reconhece fronteiras sociais.
Considerando a cultura como a soma de atividades artísticas, tradições,
conhecimentos e comportamentos, ela existe independentemente da
riqueza econômica. Obviamente a riqueza ajuda a divulgar a cultura.
Seria o Estado necessário para promoção da cultura? Se entendermos
cultura como algo além do que mero benefício individual, certamente.
A atividade cultural não se restringe aos sentimentos de deleite
ou repúdio, é também processo educativo, especialmente se origina
uma discussão. Numa democracia tal benefício não poderia ser exclusivamente
privado, mas sim, convertido em bem público e, portanto, merecedor
do fomento estatal.
Creio ser incontroversa a idéia de que a cultura nos leva à reflexão
sobre nossa situação atual, derivando daí conhecimento de situações
passadas e orientações para o futuro. Mas são controversas as questões
sobre quanto, como, em que nível, o Estado deve promover a cultura.
São argumentos favoráveis à promoção cultural por parte do Estado:
- A cultura impulsiona a criatividade humana, elemento essencial
para a dinâmica da sociedade.
- A cultura é elemento de identificação da sociedade com seu passado
e futuro.
- Não existe uma única posição cultural; a cultura educa para a
tolerância.
- Na democracia não existe uma cultura nacional.
- A cultura ao promover participação promove democracia.
- A cultura ao criar idéias e impulsionar fantasias promove o desenvolvimento.
- A cultura aumenta o nível educacional.
- A cultura permite aumento da competitividade econômica dos países
internacionalmente, ao promover o comércio exterior e atrair turistas.
Para os políticos, quando discutem o fomento à cultura, o problema
reside no fato de que os resultados são aqui inseguros e não rapidamente
visíveis. A cultura nunca é a primeira prioridade. Num primeiro
momento, dada a situação econômica e social atual, isso pode até
ser compreensível. Porém, conhecendo efeitos econômicos diretos
e indiretos da promoção da cultura os políticos deveriam mudar de
opinião.
Ponto 2:
Numa primeira análise, economia e cultura parecem ser irmãs que
se hostilizam. Mas existem vários aspectos que mostram uma proximidade
entre os dois campos. a
) O desenho do sistema econômico é um reflexo de tradições, vinculadas
à cultura. O comportamento de consumidores expressa indiretamente
aspectos culturais.
b) Para "produzir" cultura são necessários fundos econômicos.
c) A cultura requer espaços físicos para se desenvolver.
d) Há grande impacto das atividades culturais no mercado de trabalho.
e) A cultura gera renda.
f) Uma atividade e boa infra-estrutura cultural pode atrair turistas.
g) A cultura pode promover a ascensão social.
h) A cultura aumenta a competitividade internacional dos países.
Em alguns países da Europa estudos mostram que o impacto das atividades
culturais sobre o PIB chega diretamente a 7% e indiretamente a 20%,
30%. Infelizmente não tenho encontrado estudos atuais e regionais
sobre o Brasil.
Ponto 3:
A composição do orçamento municipal depende da Constituição de cada
país, da situação econômica, do tamanho da municipalidade e outros
fatores.
Seria interessante realizar um estudo dos orçamentos de diferentes
municípios no Brasil, para saber que porcentagem é dedicada à cultura
e, deste montante, quanto é gasto nas atividades culturais e quanto
absorvem os custos pessoais.
Uma possibilidade de financiamento é o mecenato, através das Leis
de Incentivo. Os efeitos positivos de tais Leis não são necessariamente
claros, porém há exemplos de problemas sérias quando se abriu mão
das mesmas. Tem-se mostrado efetivo o método de combinar a dedução
de impostos com investimentos privados diretos e contrapartidas
estatais no mesmo montante. A UNESCO tem recomendado a criação de
Fundos nacionais ou regionais com parte dos impostos, o que pressupõe
a existência de bom controle sobre os gastos de tais fundos.
Ponto 4:
Há argumentos importantes em defesa da promoção cultural no nível
do município:
- Diante da globalização, Estado e União deveriam lidar mais com
questões internacionais.
- Outras esferas estão mais distantes das necessidades e capacidades
artísticas da população.
- No município a participação da população é mais intensa.
- Será mais fácil encontrar patrocinadores localmente.
Se há recursos e vontade política, a questão é como promover a cultura,
ou seja, quais atividades, quais artistas, quais setores, etc.
A Prefeitura não pode decidir sozinha sobre os grupos que receberão
as verbas. Por outro lado, a decisão também não pode ser somente
da sociedade. Uma solução possível seria uma comissão de artistas,
ou concursos públicos, mas o ideal é uma comissão que reuna especialistas
e representantes da população. Também pode ser designado curador
por tempo ou evento limitado. O importante é a transparência.
Conclusão:
O problema da eficiência e qualidade da vida cultural do município
depende ultimamente de um bom arts management que faz o melhor com
os fundos existentes. Muitas vezes os diretores de equipamentos
culturais na América Latina carecem de conhecimentos artísticos
e empresariais. Há metodologias desenvolvidas no exterior sobre
o arts management que poderiam ser aplicadas no Brasil. A preparação
de cursos de formação para arts managers municipais seria uma boa
tarefa para os Estados, que dispõem de mais recursos que os municípios.
Allen Scott
(Professor e diretor-adjunto do Departamento de Políticas Públicas
e Pesquisa Social da Universidade da Califórnia, EUA)
Atualmente existem formas de cultura integradas decisivamente com
a economia. Por outro lado, a economia tem se tornado cada vez mais
estetizada e isso é importante para o desenvolvimento. Portanto,
creio que cultura e economia convergem de maneira fundamental. Pierre
Bordieu falava em economia simbólica do capitalismo.
A Nova Economia se expressa hoje em várias "versões". Porém, creio
que a vanguarda nos dias de hoje é exatamente a mídia e a economia
cultural, não mais a indústria do aço ou a indústria automobilística.
A economia cultural possui caráter organizacional que a torna essencialmente
urbana. Há uma determinante tendência de formação de complexas redes
de comunicação, envolvendo as mais variadas atividades. A palavra
chave aqui é a flexibilidade, tanto no que se refere à mobilidade
de recursos quanto ao trabalho temporário, mesmo nos níveis mais
altos de salário.
Os setores que possuem maior flexibilidade tendem a se aglomerar
em regiões metropolitanas, distritos industriais de produção cultural.
Isso é visível quando analisamos importantes cidades como Paris
e Los Angeles. Nessa medida, muitos municípios têm se organizado
para transformar o ambiente urbano, tornando-o mais atraente para
a produção cultural.
Uma característica imprescindível dos distritos deve ser a possibilidade
de criar e promover inovações. Muitas vezes há processos de estagnação,
que diminui o interesse pelo distrito em função da perda de vantagens
comparativas. O contato com mercados diversificados é importante
para manutenção da dinâmica e capacidade criativa das cidades.
Para concluir, gostaria de comentar impactos da globalização na
urbanização e no desenvolvimento cultural. Acredito que as teorias
de uniformização cultural, ou seja, as concepções de que o mundo
caminhava na direção de uma "cultura única", poderiam até ser aceitas
no cenário de vinte ou trinta anos atrás. No entanto, os últimos
dez, vinte anos nos mostraram que tal caminho não se concretizará.
A produção cultural mundial não será dominada por uma "cultura única".
De qualquer maneira, tenho dúvidas se haverá espaço para manifestações
culturais muito localizadas, de menor expressão. Surgirão, sim,
grandes e diferenciados centros mundiais de produção e comercialização
cultural. Trata-se, portanto, de uma globalização policêntrica nesse
sentido.
Danilo Miranda
(Diretor do Departamento Regional do SESC no Estado de São Paulo,
Brasil)
A política cultural deve ser entendida como uma forma de intervenção
na sociedade, com propostas e ações sustentadas por um projeto abrangente
de ação em prol da cidadania e da qualidade de vida, para além da
política de educação ou de ensino formal.
Abordagens recentes, principalmente na Europa, colocam a política
cultural no centro das ações públicas, nas mais diferentes esferas.
A atuação de organismos internacionais foi fundamental para essa
mudança de perspectiva.
É preciso trabalhar em prol de uma ampla política cultural, que
não esteja restrita a uma política de patronato ou mecenato, voltada
meramente para manutenção de artistas, intelectuais e suas obras.
Uma ação cultural relevante deve visar:
a) socializar o universo da cultura;
b) estimular o conhecimento e expressão de signos inovadores e muitas
vezes transgressores;
c) ser forma estruturada e permanente de intervenção institucional;
d) propor a educação permanente ou informal - a autoformação.
É esse o nosso entendimento de Democratização Cultural, ou de Justiça
Cultural. Luta-se contra a barbárie e a favor de um processo civilizatório,
o que apresenta grandes dificuldades como resultados subjetivos,
difíceis de serem mensurados e em oposição à força da cultura de
massa.
Diante das dificuldades, os pontos principais da ação cultural do
SESC centram-se na idéia de democratização, do fomento da diversidade
cultural e artística e dos diferentes públicos, reconhecimento da
identidade brasileira, formação para a expressão cultural, investigação
e compromisso com o novo.
Além de pensarmos estratégias de financiamento e promoção da cultura,
é necessário termos claramente delimitadas as atribuições e papéis
das esferas públicas e privadas no tocante às políticas culturais.
Os números das Leis de Incentivo e do orçamento do Ministério da
Cultura mostram uma clara opção por deixar o mercado decidir para
onde caminha a cultura em nosso país. É preciso ter em mente que
o incentivo é uma das ferramentas de captação de recursos para a
cultura, mas não pode ser uma política exclusiva.
Alguns estudos mostram o impacto da cultura na economia, ainda que
seria preciso avançar muito nessas análises no Brasil. O mercado,
com todo potencial da cultura, partindo da existência de leis claras
e condições iguais de desenvolvimento, tem uma capacidade de sustentar-se
por si só e encontrar seus caminhos.
Porém, é indispensável a ação pública de governos e instituições
que garanta o incentivo e a promoção de atividades que, além de
difundir criações artísticas, ajam no sentido de criar condições
para que as práticas culturais possam se desenvolver, transformarem-se
em hábito, para que sejam incorporadas à vida social não simplesmente
como evento, mas como modo de transformação e enriquecimento individual
e coletivo. Não cabe ao mercado decidir sozinho as diretrizes do
desenvolvimento cultural de toda uma sociedade.
Nas sociedades democráticas o desenvolvimento econômico nunca é
um fim em si. É preciso sempre pensar em instrumentos que possam
garantir que o fomento artístico e cultural constitua-se em um dos
lastros do desenvolvimento e sustentabilidade econômica das comunidades
mas, ao mesmo tempo, que se preservem as diversidades, a multiplicidade
de identidades, o experimentalismo criador, atentando para que a
cultura não seja instrumento de dominação de grupos nem forma de
homogeneização da sociedade.
Marco Aurélio Garcia
(Secretário da Cultura do Município de São Paulo, Brasil)
As três importantes contribuições dessa mesa, contemplaram aspectos
amplos:
- A relação entre economia e cultura, que perpassou as três exposições;
- Cultura e Política Cultural, discutindo-se a relevância do papel
do Estado;
- Financiamento da Cultura.
Gostaria de destacar algumas questões para nossa reflexão. Acredito
que nos três oradores esteve presente a idéia de que a culturalização
da economia não significa a mercantilização da cultura. Isso nos
leva à discussão das políticas culturais e responsabilidade do Estado.
Em alguns momentos, de fato, a questão não é buscar finalidades
concretas para a atividade cultural, como destacou Danilo Miranda.
Há um saudável aspecto de intangibilidade da cultura que muitas
vezes é abalado pelas angústias da vida moderna.
Compartilho de muitas observações aqui colocadas, no sentido da
necessidade de procurar definir as responsabilidades pesadas do
Estado no financiamento da cultura. Dieter nos encaminhou claramente
para isso. Temos nos esforçado para aumentar a parcela do orçamento
da cidade de São Paulo destinado à cultura, que hoje aproxima-se
de 1,5%. Vale destacar que trata-se de porcentagem superior às adotadas
nas demais esferas, que giram em torno de 0,5% no Estado de São
Paulo e 0,25% na União. Não há política cultural que se sustente
com recursos tão parcos.
Esse retraimento muitas vezes vem sendo "atenuado" pelas Leis de
Incentivo, que na minha opinião vêm sendo impropriamente identificadas
com mecenato. Ora, não se trata de mecenato, visto que envolve recursos
que são públicos.
As Leis de incentivo foram adotadas num momento particular da história
do país, no início dos anos 90, quando foram extintas instituições
importantes, apesar de seus problemas, como a Embrafilme. Sem dúvida,
naquele momento, as Leis permitiram que artistas recuperassem iniciativas.
No entanto, se isso é verdade, também é verdadeiro o fato de que
as Leis contribuíram para a concentração cultural. Na maioria, foram
beneficiados artistas renomados, reconhecidos pelos potenciais patrocinadores,
ou portadores de canais privilegiados no Estado.
É preciso sofisticar os mecanismos de financiamento. Um elemento
central seria a criação de Fundos que se beneficiassem de recursos
orçamentários e outros provenientes de renúncia, porém, sem destinação
específica. A seleção, através de critérios meritórios, transparentes,
se daria por meio de Conselho fortemente controlado pela sociedade.
Isso não exime o Estado de suas responsabilidades. Há enorme déficit
de infra-estrutura cultural e, num aspecto pouco comentado, de quadros
técnicos qualificados. Investimentos nessas áreas certamente representariam
significativos impactos na economia e no mercado de trabalho.
Caberia também ao Estado, no âmbito de suas atribuições exclusivas,
promover a socialização de bens culturais e, diante do quadro de
pasteurização e mercantilização, criar nichos de proteção ao que
é vanguarda, ao que é autêntico. Finalmente, mas não menos importante,
faz-se necessária uma regulamentação do mercado cultural, nacional
e internacional, com criação por exemplo de mecanismos mais homogêneos
de distribuição.
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