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CONFERÊNCIAS PLENÁRIAS
Inovações nas formas de gestão urbanas

7 de junho de 2002, 10h30


Gail Christopher
(Professora de Harvard e membro da Academia Nacional de Administração Pública, EUA)

O programa de experiências inovadoras de gestão local (em convênio da Harvard com a Fundação Ford) busca demonstrar que os governos podem funcionar bem e promover exemplos de excelência no serviço público, pois acreditamos que um setor público forte é vital para as democracias.

O foco, inicialmente, estava nas inovações no governo local e posteriormente também na esfera federal. O programa apóia experiências em vários países do mundo e também projetos voltados para comunidades indígenas nos EUA. É um processo competitivo, um prêmio em recompensa por realizações, que deve ser usado para apoiar a difusão da experiência. Para acelerar o processo de inovação, este tipo de programa em parceria com universidades é fundamental.

Há três sistemas a serem transformados para se criar inovação numa organização, transformar sua cultura. Sistema de recursos humanos, sistema de orçamento, sistema de gerenciamento de informação. Eles formam a base de para a performance do governo, sua capacidade de responder pelas políticas implementadas. Nem sempre líderes eleitos são bons administradores. Para se avaliar a efetividade dos programas, há uma demanda de sistemas de informação. Esta é uma oportunidade para se criar parcerias com setores de informação da iniciativa privada.

Mas é fundamental também criar uma cultura que responde às necessidades dos empregados, que dá a eles a sensação de poder. Administração é, basicamente, transformar relações humanas. As experiências premiadas pelo programa Harvard;Ford podem ser encontradas no Web site da Harvard University, com uma busca pelo termo "innovations". Alguns exemplos do Brasil que lá estão, além do sempre citado orçamento participativo, são processos de construção de escolas indígenas, que incluem treinamento de professores. A diversidade cultural é crítica para o processo de inovação.

Outro elemento importante para se reinventar o governo é ouvir os trabalhadores. É necessário também ter cautela com privatizações e parcerias, já que os trabalhos do programa permitem concluir que a iniciativa privada nunca pode responder pela efetividade das ações conduzidas como o setor público. A sabedoria adquirida pela análise das experiências inovadoras pode ser sintetizada na idéia de que é possível produzir a justiça social e ampliar a sustentabilidade a partir da ação do poder público.


Mariano Arana
(Prefeito de Montevidéu, Uruguai)

Há inovações em administração que possuem impacto direto, outras indireto. Em Montevidéu, há múltiplas instâncias de trabalho conjunto com associações comunitárias, incluindo o orçamento participativo, há 12 anos. Há também inovações urbanísticas, assim como nos sistemas de informação geográfica e cadastral. Trabalhamos também com a democratização do espaço público, através da democratização da gestão cultural. É importante ter idéia da dimensão destas ações, já que a população de todo Uruguai (3 milhões) equivale à de um bairro de São Paulo.

Vou focalizar a gestão social como prioridade. É impossível contornar completamente as dificuldades econômicas, as desigualdades e iniqüidades. Em Madri numa reunião recente de prefeitos de cidades ibero-americanas, avaliamos a situação crítica em que vivem importantes setores da população de nossos países. A América Latina teve a menor taxa de crescimento econômico do mundo em tempos recentes, sofrendo o impacto dos processos de internacionalização da economia e do comércio mundial.

Nossas capitais sofrem este impacto na paisagem urbana e na paisagem humana. A situação já era grave, e foi agravada. Em alguns casos, a gravidade pode ser encoberta ou velada por indicadores de média. As estatísticas encobrem as maiores desigualdades ou as injustiças mais intoleráveis. Alguns países da região, pelo menos até recentemente, tinham índices de desenvolvimento social melhor que outros e melhor do que países da África e da Ásia.

Nos anos 80, houve crescimento econômico, reestruturação produtiva, desindustrialização, privatização e reformas estruturais. Não houve distribuição de renda. Com o início do ciclo recessivo, há pelo menos quatro anos, se percebe o dano causado pelo recuo do Estado nas suas responsabilidades sociais. A crença no "Estado reformado" levou a políticas públicas voltadas à abertura de mercado, à desregulamentação, e a políticas sociais focalizadas, corretivas.

As crises financeiras internacionais questionam a sustentabilidade deste modelo. Isto ficou claro desde o primeiro semestre de 1998, quando ocorreu a desvalorização da moeda brasileira. A Argentina hoje vive uma profunda crise econômica, política e social. Há falta de confiabilidade internacional, insegurança dos cidadãos, retração do consumo, pauperização das camadas médias, núcleos de pobreza dura até então desconhecidos, falta de confiança no sistema político, desemprego estrutural.

Os governos locais têm sérios limites para enfrentar esta situação. Nós, que temos consciência da gravidade da situação precisamos nos unir. O intercâmbio de cidades deve ser feito não apenas para diagnósticos, mas para buscar soluções para enfrentar os problemas, para a adaptação da ação às novas condições. Há uma redução dos recursos próprios dos municípios. A cidade só pode sustentar-se por aporte dos cidadãos da própria cidade, e Montevidéu, além disso, subsidia o governo central.

Essa situação traduz um conteúdo ideológico e opções políticas. As maiores demandas sociais ficam na cidade, e são incrementadas pela redução da renda das famílias. A população uruguaia não cresce, é envelhecida, mas os assentamentos informais da população mais pobre, as ocupações urbanas, crescem a 10% anualmente, contra 2 a 3 por mil de crescimento populacional geral por ano. O Estado nacional, repassa demandas sociais ao âmbito local, todas as exigências que não se foi capaz de atender, sem transferir recursos. Os governos locais são impedidos de ter acesso direto à cooperação e créditos internacionais, passando por restrições das agências dos governos nacionais.

No segundo Fórum Social Mundial, ocorreu o Fórum Internacional de Autoridades Locais, e se avaliou a situação desesperadora de algumas das nossas comunidades. É Importante trabalhar para desenvolver ações, buscando esperança na solidariedade, numa política ativa de inclusão social. As inovações adotadas devem ter valores sociais incorporados. Em Porto Alegre, foram articuladas ações de emergência, por exemplo de apoio a cidades argentinas. É necessário agradecer o apoio de localidades européias voltadas à solidariedade.

Devem-se promover os mais amplos acordos e convênios internacionais e com a iniciativa privada desde que resultem em melhoras inequívocas para a população pobre. A situação de emergência social deve ser assumida, superando diferenças políticas mesquinhas que prejudicam à população mais pobre. Devemos trabalhar, como governantes tanto sobre o importante quanto sobre o urgente, levando apoio a meninos e meninas de rua, mães chefes de família, desempregado, sem-teto, moradores em situação precária, jovens sem perspectiva de inserção no mercado de trabalho.

As estratégias de mais longo prazo devem ser elaboradas e implementadas, mas ao mesmo tempo há ações que exigem urgência. Não temos experiência de lidar com a gravidade da situação atual. Precisamos promover a responsabilização cidadã, desenvolver os conceitos de capital social e capital humano, que possibilitam uma maior abertura à realidade social superando os pontos de vista economicistas que tradicionalmente predominam nos debates sobre desenvolvimento.

Em Montevidéu, a aposta se centra no fortalecimento das redes de apoio já existentes na comunidade, envolvendo um conjunto de organizações públicas e privadas. É necessário manter, fortalecer e ampliar redes de solidariedade, com apoio do município e busca de envolvimento de outros setores públicos.

Vou comentar duas experiências que demonstram esta soma de recursos existentes em diferentes âmbitos na sociedade. Uma é o Plano Inverno Solidário, que comprova o potencial da sociedade civil, oferecendo abrigo e nutrição a centenas de pessoas que vivem nas ruas em situações duríssimas no inverno. Pelo terceiro ano consecutivo, teve uma resposta extraordinária, envolvendo poder público, ONGs, empresas e indivíduos.

Outro caso é a política social de emprego. É uma necessidade fortemente demandada e um direito humano. Implementamos um parque tecnológico e industrial, e há um programa trabalhando com crianças em situação de risco e jovens, que de outro modo dificilmente teriam acesso a primeira experiência de emprego formal e capacitação profissional, além de experiências com ex-detentos e com desempregados.

Os índices são muito bons nos resultados. Pode ser que sejam pequenos resultados diante dos problemas estruturais, mas seu valor não pode ser medido por resultado mensuráveis, mesmo que consideráveis, mas pelos valores que promovem. Nesta conjuntura especial, é necessário dar uma atenção especial a quem necessita, fazer o trabalho solidário.


Raquel Rolnik
(Coordenadora do Instituto Pólis, consultora das Nações Unidas em Políticas Urbanas e professora da PUC de Campinas)

Temos que analisar o efeito nefasto das políticas econômicas praticadas no mundo para as políticas urbanas, e situar a mudança na gestão municipal em diálogo com esta realidade, contextualizando aquilo que está circulando como boas práticas, práticas bem sucedidas. O programa da Ford, assim como outras iniciativas nacionais e internacionais, realizam a premiação e difusão destas experiências.

É importante discutir o que tem sido produzido neste âmbito e quais são os efeitos. Vou fazer um comentário crítico sobre a idéia da inovação da gestão e alguns efeitos perversos que podem ocorrer. No meio destas experiências existem sim práticas locais extremamente eficientes e importantes no sentido da superação de problemas básicos. O problema é o grande "saco" em que entram todas estas inovações, o que ocorre pela própria existência do campo denominado de "inovação".

Há um grande fosso entre as políticas urbanas do primeiro mundo (EUA, Europa...) e do mundo subdesenvolvido, uma diferença básica. A agenda da inovação da política urbana no primeiro mundo, parte de um patamar básico de urbanidade que está assegurado para a população. Um acesso básico em relação àquilo que se pode chamar de cidade, lugares para morar que podem ser chamados de casa, não de buraco, bairros que não são depósitos de gente.

A minoria das cidades está neste mundo ou garantiu este patamar básico para o conjunto da sua população. Há uma diferença de qualidade urbana nos vários bairros destas cidades, mas nas nossas cidades há 60, 70, 80%, 30% nos melhores casos, de exclusão territorial, de não-acesso ao que pode ser chamado de cidade. É muito diferente falar em práticas bem sucedidas nestes diversos contextos, onde a situação de exclusão marca indelevelmente perfil urbano.

A grande questão é como universalizar o acesso à cidade, mas o debate da inovação tem sido dominada por inovações pontuais, pela política compensatória, focalizada. Somos vítimas de ter que atender permanentemente a uma situação de emergência, sem capacidade de intervir em situações mais gerais.

Há uma grande diferença em fazer política compensatória em cidades que têm 10% ou 60% de exclusão social. Não é problema apenas de escala. Há bons projetos de engenharia social, criativos, trabalhando com comunidades de 100 pessoas num universo de milhões. Mas em que eles mudam na lógica geral da cidade? Somos todos vítimas da globalização, mas nós vivemos em um país com muitos recursos e em cidades onde as situações piores estão em eixos fundamentais de acumulação de riqueza, e não se toca em distribuição de renda, a questão básica.

Fala-se em orçamento participativo, prática inovadora, importante, mas no contexto das políticas urbanas em que nos encontramos, pode não ter efeito nenhum de mudança, dependendo do que é colocado em discussão, da capacidade de intervenção de quem participa. Há experiências em que se atinge parte significativa dos recursos, mas na replicação, muitas vezes é uma briga para puxar um cobertor curto entre pobres, enquanto o grosso do investimento continua produzindo exclusão territorial, beneficiando quem ganha com a cidade, fazendo dela seu objeto de enriquecimento.

Por exemplo, os grandes investimentos na estrutura viária são feitos em que locais, beneficiando quem, valorizando que áreas? Muitas vezes as contradições estão dentro das mesmas prefeituras inovadoras. Situação perversa, já que permite algo que pareceria inimaginável: um governo local ser ao mesmo tempo "sócio" dos grandes interesses de valorização imobiliária, concentração de renda e poder, e ter base social, condição de diálogo com os mais pobres e excluídos.

Como falar em projetos de inovação neste ou naquele campo, tendo indicadores terríveis de saneamento básico, água e coleta de lixo (Piauí: 5% dos domicílios urbanos têm água e esgoto; Rondônia, 8%; Santa Cataria, 11%; Fortaleza, 34%; Rio de Janeiro, um dos melhores índices, 57%)?






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