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CONFERÊNCIAS PLENÁRIAS
Gestão municipal e as relações entre o setor público e o setor privado

7 de junho de 2002, 8h30


Antônio Buzzigoli
(Secretário de Desenvolvimento Econômico da Província de Turim, Itália)

Gostaria de iniciar minha exposição ressaltando o crescente papel do poder local na promoção tanto do desenvolvimento econômico como da coesão social. Uma das causas deste processo é a globalização, na medida em que elimina as distâncias geográficas e ocasiona uma revolução territorial, com alterações significativas nos locais de produção.

Desta forma, torna-se fundamental responder à seguinte questão: como inserir o espaço local de forma ativa na globalização? Isto porque o território deixa de ser um ente inerte, mero reflexo do que acontece no mundo, para se transformar em objeto de política.

Para tanto, devemos saber como superar o modelo estrutural - no qual as decisões são definidas a priori pelo governo central - e adotar o modelo funcional, que atribui funções específicas para cada território, a partir de uma programação negociada dos Prefeitos com o setor privado e movimentos sociais. Trata-se enfim de criar uma ação coletiva voltada para o desenvolvimento local.

Quatro elementos são fundamentais para viabilizar este desenvolvimento a partir do plano local. A endogeneidade, que significa utilizar com eficiência os recursos disponíveis, apurando tanto as limitações financeiras como as possibilidades de superação via financiamento. A concertação que permite veicular os interesses de todos os segmentos sociais. A integração entre os atores para a resolução de problemas. A sustentabilidade política, responsável por identificar os diferentes sujeitos do projeto, tornando-os partícipes da ação coletiva voltada para o desenvolvimento com coesão social.

Vale ressaltar ainda que, enquanto a lógica econômica passa a se voltar para a inovação do produto, a política assume uma dimensão supranacional, não dispondo os Estados Nacionais das ferramentas clássicas de estímulo à economia. Neste sentido, o território transforma-se no espaço para resolução de problemas. E a ação local deve se concentrar na promoção da inclusão social e da cidadania ativa.

Mas o que pode ser feito a partir do plano local? Basicamente, deve-se desenvolver sistemas públicos locais que favoreçam a internacionalização, incentivar inovações tecnológicas - aproveitando-se do conhecimento acumulado nas universidades e criando incubadoras de empresas - e solucionando os gargalos de infra-estrutura.

Trata-se enfim de criar uma nova capacidade de governar, que se diferencia das antigas tarefas do Estado de direção e planejamento. Desta forma, cria-se um capital social, o qual vai além do capital físico ou financeiro. Este capital social resulta, por sua vez, da criação de um espaço de diálogo entre os atores, indispensável para induzir as decisões de investimento, como também para assegurar melhores condições de vida.

A tão citada experiência italiana de redes de produção é fruto de um processo instantâneo de articulação local. Devemos, entretanto, ir além institucionalizando este processo através da construção de redes de relacionamento. Ou seja, faz-se necessária a criação de uma nova cultura que funcione como motor do desenvolvimento.

Estas articulação local, se é positiva e frutífera, apresenta também riscos, tais como o excesso de institucionalização, o déficit de comunicação com os atores e a não-participação das grandes empresas, que poderiam optar por uma lógica de curto prazo, fugindo a esta coordenação coletiva.

Sintetizando, dispomos de dois caminhos para a inserção do desenvolvimento local no contexto de globalização da economia. Ou se opta pela "estrada baixa", que significa uma competitividade espúria com redução dos direitos sociais e do papel do setor público. Ou então consegues-se promover uma ação coletiva concertada e integradora que encare a coesão social como resultante necessária de todo e qualquer desenvolvimento econômico.


Oded Grajew
(Presidente do Conselho de Administração da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e Diretor-Presidente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social)

Em primeiro lugar, gostaria de apresentar o trabalho do Instituto Ethos para depois apresentar algumas idéias sobre a responsabilidade social no Brasil e concluir com uma nova proposta para o município de São Paulo, que acredito possa ser implementada em outros municípios do Brasil.

O Instituto Ethos foi criado com a intuição de que a relação entre o setor público e o setor privado poderia ser de colaboração e parceria. A partir desta mudança de perspectiva, as empresas passariam a ser encaradas como agentes de transformação social. Neste sentido, uma atuação ética e socialmente responsável das empresas contribuiria para uma sociedade mais justa.

Hoje o Instituto Ethos possui 610 empresas associadas que englobam 1 milhão de trabalhadores e 28% do PIB brasileiro. A sua filosofia parte da responsabilidade das empresas pelos efeitos sociais e ambientais dos seus atos econômicos. Segundo esta ótica, a economia deve passar a funcionar a serviço da pessoa, e não mais ao contrário.

A responsabilidade social é um conceito abrangente, que envolve na prática as relações do setor privado com funcionários, fornecedores, o meio ambiente, a comunidade e o setor público. Não se trata de filantropia, mas da participação ativa do empresariado na sociedade.

Esta mudança de postura não foi repentina ou casual, mas reflexo de uma transformação da sociedade, que passou a exigir direitos e responsabilidades dos atores econômicos e sociais.

Obviamente que a responsabilidade social também tem se transformado num bom negócio, tendo sido assimilada pela lógica da empresa, tornando-se um fator de competitividade. Não à toa, as melhores empresas para se trabalhar, segundo pesquisa da Exame, são as mais lucrativas.

O poder público inclusive possui uma grande capacidade de estimular esta mudança de postura do empresariado, através da sua relação com os fornecedores. Pode, por exemplo, estabelecer critérios sociais ou exigir a formulação de um balanço social dos fornecedores, o que funcionaria como um elemento adicional a ser considerado nas licitações. Existe pois uma relação de interdependência, onde o setor público estabelece parâmetros para o seus fornecedores e estes para o restante da cadeia produtiva.

Como agentes indutores deste processo, contamos com a mídia, o mercado financeiro, as universidades, a comunidade e o setor público. O Instituto Ethos possui ferramentas, manuais e um banco de práticas, que permitem difundir esta nova cultura para o empresariado.

Com o intuito de facilitar o "casamento" entre as ofertas do setor privado e as demandas e carências do setor público, criamos o Fórum Empresarial de Apoio à Cidade de São Paulo. O objetivo é superar a superposição de esforços e a dispersão de recursos, a partir da construção de um espaço de diálogo entre o setor público e o privado.

O Fórum está composto por um Conselho de Personalidades, do qual participam a Prefeita de São Paulo e empresários de destaque; do Plenário do Fórum, no qual se encontram secretários municipais e administradores regionais com empresários de vários setores; da Coordenadoria Executiva, que recebe os projetos, realiza o seu encaixe e acompanha a sua execução; e do site do Fórum, onde são disponibilizados os projetos e as parcerias efetuadas, tornado transparente a relação entre o setor público e privado.

Somente para termos uma idéia dos desafios da cidade de São Paulo, podemos fazer uma simples conta. O orçamento per capita da cidade é de R$ 80,00 ao mês por pessoa. No orçamento de 2002, foram alocados 8% dos recursos para investimento (R$ 800 milhões), estando o restante vinculado ou comprometido com o serviço da dívida. Neste ritmo, para que R$ 80 bilhões fossem investidos na cidade - montante necessário para assegurar qualidade de vida e uma infra-estrutura urbana mínima - levaríamos 100 anos. Daí a necessidade de o setor privado contribuir com o setor público para a superação deste desafio.

O gasto social das empresas já é um dado da realidade no Brasil. Em 2001, ele atingiu uma cifra de R$ 4,7 bilhões - cerca de 30% dos recursos despendidos do governo federal para a área social.

São várias as formas de cooperação possíveis: doação de equipamentos, cessão de espaço privado, formação profissional, voluntariado, reforma de veículos e espaços públicos, dentre outras. Temos também o intuito de criar um selo para a "empresa amiga da cidade".

O foco do Fórum é portanto a cidade e sua população, possuindo uma natureza supra-político-partidária, essencial para a sua sustentabilidade institucional, ao passo que os seus benefícios abrangentes, já que os projetos são selecionados a partir da sua utilidade social.


Maria Célia Paoli
(Professora da Universidade de São Palo-USP e coordenadora do Centro de Estudos para os Direitos da Cidadania)

Inicio minha apresentação, expondo os resultados de uma pesquisa sobre globalização e os seus impactos, encomendada pelo professor Boaventura dos Santos. Utilizarei os elementos desta pesquisa para fazer uma discussão crítica com algumas das idéias apresentadas pelos demais expositores.

Para a realização desta pesquisa, parti da seguinte questão: a atuação empresarial, através da responsabilidade social, pode ser encarada como contra-hegemônica às políticas neoliberais? A conclusão a que cheguei é que, apesar dos méritos da atuação do setor privado em atividades sociais, há uma compatibilidade entre esta lógica e a do neoliberalismo.

Seguido esta perspectiva, poderíamos dizer que o problema fundamental encontra-se no obscurecimento da relação entre o espaço público e o espaço privado. Estaríamos presenciando, no dizer do Professor Francisco de Oliveira, uma privatização do espaço público e uma publicização do espaço privado.

Como conseqüência, percebe-se um esvaziamento da questão pública e democrática, seguida de uma perda de referência básica e universal. Um dos exemplos deste processo seria a banalização da palavra cidadania. Conceitos fundamentais e coletivos como democracia, justiça e direitos passariam a ser assimilados a partir de uma referência privada.

Interessantemente, este processo de refilantropização da política social coincide com a expulsão do contrato social de uma parcela expressiva da população, marginalizada do acesso ao mercado de trabalho e a direitos antes universais. A racionalidade econômica, e a lógica da eficácia que lhe é implícita, impõe-se frente à lógica política. Por isso, considero mais coerente qualificar a atuação do setor privado como filantrópica do que como de responsabilidade social.

Percebe-se pois um desnível entre a demanda crescente por direitos sociais, de um lado, e a prevalência do setor privado, de outro, na definição das prioridades de gasto. Verifica-se assim uma substituição compensatória do contrato social público por ações privadas inseridas dentro da lógica do lucro mercantil.

Ainda que estas ações do setor privado no âmbito social possam ser vistas como virtuosas, elas permitem a configuração de territórios ambíguos, estendendo o poder da empresa e esvaziando o papel do setor público. A responsabilidade social transforma-se assim num nicho de mercado para as empresas.

Ou seja, as parcerias entre o setor público e privado não podem assumir o caráter de relações de natureza meramente técnica, sob pena de excluir os atores sociais da definição das políticas públicas que numa sociedade democrática devem ser universais. Para que possam ser virtuosas em todos os aspectos, as parcerias entre o setor público e privado devem contribuir para resgatar o espaço público a partir da participação social.


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