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Gustavo Riofrío - Há muito o que ensinar e aprender
O peruano Gustavo Riofrío Benavides
é urbanista e sociólogo. Coordenador do
programa de Gestão Urbana da Desco, há muito vem
desenvolvendo trabalhos de
combate à pobreza urbana, principalmente ligados à
área de habitação. Por esse
motivo foi um dos escolhidos para escrever um dos Documentos-Guia da
Conferência
de Lançamento da Rede 10. Nesta entrevista exclusiva, fala da
urbanização em
cidades peruanas, da importância da posse da terra para as
pessoas de baixa
renda e da necessidade de intercâmbio entre cidades
latino-americanas e
européias, o que pode ser proporcionado pelo programa URB-AL.
Rede 10 - Conte um pouco
da sua experiência com habitação em
seu país, o Peru.
Gustavo Riofrío - A
urbanização
popular no Peru é muito importante. Mais de 60% de
ocupação das cidades é feita
de forma irregular. O governo planeja a urbanização em
cima dessa ocupação. A
pessoas primeiro ocupam, só depois são construídas
as moradias, com
financiamento do governo.
R 10 - Qual a
importância da moradia para a qualidade de
vida da população de baixa renda?
Riofrío - Se as
famílias não têm a segurança da posse do
solo, dificilmente vão melhorar o lugar
que habitam. Precisam estar seguras dessa posse. Esse é um
conceito acordado com
o governo, porém não satisfaz a todos. As autoridades,
por exemplo, ficam
insatisfeitas quando as famílias tornam-se donas do solo e,
mesmo assim,
mudam-se. Por isso é muito importante distinguir
habitação de solo, são coisas
bastante distintas. A questão do solo é
prioritária para a habitação. Primeiro é
preciso ter solo, depois apóia-se a produção da
habitação. O que acontece na
América Latina e em toda a América do Sul é que o
solo já foi ocupado por
favelas, ranchos, povoados pobres, cooperativas, ou até por uma
urbanização
pirata. A dificuldade maior é que nesses bairros, que antes
não havia nada,
agora há construções e são, pelo menos,
duas famílias em cada terreno. Não
existem procedimentos, assistência técnica adequada para
que se possa construir
com qualidade ambiental, arquitetônica e segurança e
deixar a habitação para as
gerações seguintes.
R 10 - Qual o papel da
Rede 10 da URB-AL nesse processo de
urbanização?
Riofrío - É muito
interessante, porque as
cidades são diferentes. Há fenômenos que se repetem
em toda cidade grande e há
outras características que não. Com a URB-AL podem ser
trocadas experiências de
trabalho úteis. Que podem ser, convenientemente, aplicadas,
não copiadas. Por
exemplo, nas cidades populares do Peru, as famílias cuidam dos
jardins da cidade
em frente às suas respectivas casas. Nas cidades da
França, esse é um assunto
caro e de competência do poder municipal. Pela URB-AL podemos
juntar estudantes
da França e do Peru e mostrar como envolver a
população com os cuidados com os
jardins do município, com ajuda da própria cidade. Temos
muito o que ensinar à
Europa e também muito a aprender.
R 10 - Qual é o
papel da sociedade civil organizada na
Rede?
Riofrío - Todas as nossas
teorias de cidades são
importadas, depois muitas autoridades só sabem as coisas por
livro. Conclusão:
não sabemos o que fazer. Então, se queremos fazer as
coisas bem, precisamos que
as pessoas participem. E que essa participação não
seja na conjugação do verbo
participar da forma eu participo, tu participas, ele participa, eles
decidem.
Outras palavras
Veja trechos do discurso que o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva no
encontro do G8 em Evian, França
"A pobreza e a miséria que atingem
milhões de homens e mulheres no Brasil, na
América Latina, na África e na Ásia, nos obrigam a
construir uma nova aliança
contra a exclusão social. Estou convencido de que não
haverá desenvolvimento
econômico sem sustentabilidade social e que, sem ambos, teremos
um mundo cada
vez mais inseguro. É nesse espaço de
desagregação social que prosperam os
ressentimentos, a criminalidade e, em especial, o narcotráfico e
o
terrorismo."
"A economia mundial está dando
sinais preocupantes de retração. Os problemas
sociais, como o desemprego, inclusive nos países ricos,
estão se agravando cada
vez mais. Estou seguro de que um dos objetivos desta reunião do
G8 é o de buscar
caminhos para que a economia volte a crescer. Necessitamos uma nova
equação que
permita a retomada do crescimento e inclua os países em
desenvolvimento. A
incorporação dos países em desenvolvimento
à economia global passa
necessariamente pelo acesso sem discriminações aos
mercados dos países
ricos."
"Nenhuma teoria, por mais sofisticada que
seja, pode ficar indiferente à
miséria e à exclusão. Olhando a história
contemporânea, sobretudo nos períodos
que se seguiram a graves crises econômicas e sociais, vejo que o
desenvolvimento
deu-se a partir de profundas reformas sociais. Essas reformas
incorporaram
milhões de homens e mulheres à produção, ao
consumo e à cidadania e criaram um
novo e prolongado dinamismo econômico. Foi assim nos Estados
Unidos a partir dos
anos 30. Foi assim no pós-Segunda Guerra, na Europa."
"A fome é uma realidade
intolerável. Sabemos que existem plenas condições
para superar esse flagelo. Minha proposta -antecipada em Porto Alegre e
Davos- é
que seja criado um fundo mundial capaz de dar comida a quem tem fome e,
ao mesmo
tempo, de criar condições para acabar com as causas
estruturais da fome. É o que
estamos começando a fazer no Brasil. Há várias
formas para gerar recursos para
um fundo dessa natureza. Dou dois exemplos. O primeiro é a
taxação do comércio
internacional de armas -o que traria vantagens do ponto de vista
econômico e
ético. Outra possibilidade é criar mecanismos para
estimular que os países ricos
reinvistam nesse fundo percentagem dos juros pagos pelos países
devedores.
Alguns países desenvolvidos têm apresentado propostas para
enfrentar esse
problema. São iniciativas válidas, que merecem ser
consideradas."
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