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Antonio Elizalde Hevia
Universidade Bolivariana
(Chile)
A solidariedade livra a justiça
das relações funcionais e burocráticas
através de relacionamentos com rosto humano; sem ela, o
direito pode ser
daninho às pessoas e converter-se em algo iníquo.
Não se deve somente buscar o
bem do outro, senão fazê-lo como se fosse meu
próprio bem.
(Joaquín García
Roca, Exclusão Social e Contracultura da Solidariedade
(Exclusão Social e
Contracultura de la Solidaridad)
Participo logo existo como cidadão .
(Federico Maeor Zaragoza, Los
nudos gordianos)
Introdução
Quis iniciar minha reflexão sobre o tema
Ética e Democracia no Combate à Pobreza Urbana com as
citações anteriores porque
creio que elas estão relacionadas ao âmago das
questões éticas e democráticas
nas políticas orientadas a erradicar a pobreza urbana.
Por que afirmo isto?
A pobreza, urbana, assim como toda outra
forma de pobreza, tem sua origem na exclusão social gerada por
sociedades como as nossas, às quais se adapta bem o neologismo
criado por Alguacil e outros (2000:19) de sociedades
“exclusógenas”. O contrário à exclusão
é a inclusão, a vinculação, a
relação, mas tudo isto poderia ser feito inclusive sem a
participação daqueles que se procura incluir, ou melhor,
a partir de uma atitude passiva, meramente receptiva e sem uma
mudança de postura mental e emocional daqueles que possam ser
beneficiários da política de inclusão. Por isso
existe a necessidade de um antídoto que neutralize nas
práticas da política de luta contra a pobreza, as
tendências funcionais e burocráticas que possam chegar a
gerar uma ausência de solidariedade real; como contrapartida
teria que se abrir caminho a uma justiça de acordo com a medida
de cada ser humano, que conduza efetivamente àqueles que hoje
estão excluídos por sua pobreza a uma plena
condição cidadã que lhes torne possível o
exercício real e efetivo de seus direitos humanos.
Este antídoto é o
caráter democrático das relações
socialmente construídas e
requer, como condição necessária embora não
suficiente, a participação dos
envolvidos na prática de qualquer política
pública.
A outra condição
necessária é o fomento e desenvolvimento de uma cultura
de
solidariedade, isto é, de uma alternativa à cultura
exclusógena dominante em
nossos territórios urbanos e cujo núcleo central é
a “aporofobia”; conceito
criado por Adela Cortina para dar nome a uma realidade que até o
momento não
existia, qual seja a repugnância e o temor aos pobres, a essas
pessoas que não
apresentam o ‘aspecto respeitável’ de quem tem suas necessidades
básicas
cobertas. De fato, “não marginalizamos o imigrante se é
rico, nem o negro se é
jogador de basquetebol, nem o aposentado com patrimônio, aqueles
que
marginalizamos são os pobres” (Cortina, 1997:70).
A aporofobia consiste, portanto, em um
sentimento de medo e em uma atitude de
rejeição ao pobre, ao sem meios, ao desamparado. Tal
sentimento e tal atitude
são adquiridos. A aporofobia se induz, se provoca, se aprende e
se difunde a
partir de relatos alarmistas e sensacionalistas que relacionam as
pessoas de
escassos recursos com a delinqüência e com uma suposta
ameaça à estabilidade do
sistema socioeconômico. No entanto, uma análise rigorosa
dos dados disponíveis
nos mostra que a maior parte da delinqüência, e a mais
perigosa, não procede dos
sectores pobres da população, mas de máfias bem
organizadas que controlam uma
imensa quantidade de recursos.
“Em sociedades como as nossas, organizadas
em torno da idéia de contrato em
qualquer das esferas sociais, o pobre, o verdadeiramente diferente em
cada uma
delas, é o que não tem nada interessante para oferecer em
troca e, portanto, não
tem capacidade real de contratar”. De fato, a chave para compreender a
aporofobia é que na maioria dos âmbitos da vida social
há quem tem poder para
pactuar e também há quem não o tem; algumas
pessoas têm algo que pode interessar
aos poderosos e outras, no entanto, carecem de interesse para eles. O
resultado
é que os áporoi, os pobres, são os
excluídos do intercambio, os que não são
levados em consideração devido a que carecem, mesmo que
temporariamente, de
capacidade de intercâmbio”. (Emilio Martínez, 2002:20).
Breves reflexões sobre a ética
Adela Cortina, uma das principais autoras no âmbito da
reflexão ética
recente, em breve e precisa síntese (Cortina, 1994:17-33) a
respeito do que é a
Ética, salienta que:
“A ética é um tipo de saber
que orienta a ação (um tipo de saber prático)” e
que “…é essencialmente um saber para agir de um modo racional.”
Afirma que há dois modos de saber
ético (modos de orientar racionalmente a
ação):
1. aprender a tomar decisões prudentes, mediante a forja do
caráter
2. aprender a tomar decisões moralmente justas, com
respeito aos
direitos humanos desde uma moral crítica
Nos aponta além disso que os
fundamentos da ética surgem do fato de
que:
a) os seres humanos são estruturalmente morais;
b) os seres humanos
tendem necessariamente à felicidade;
c) todos os seres vivos buscam o prazer
(hedonismo);
d) os seres humanos têm dignidade porque só eles
são livres já
que são autônomos;
e) todos os seres humanos são interlocutores válidos
(ética do diálogo).
Formula como características da
ética cívica
1. uma ética de
mínimos
2. uma ética de cidadãos, não de
súditos
3. um tipo de consciência
moral baseada na autonomia
Por último, mantém que seus
conteúdos mínimos devem ser:
1. os valores de
liberdade, igualdade e solidariedade
2. os direitos humanos
(primeira
geração: direitos civis e políticos: liberdade)
(segunda geração: direitos
econômicos, sociais e culturais: igualdade)
(terceira geração: direito a
viver em paz, direito a viver em um meio ambiente são:
solidariedade)
3. a
tolerância ativa
4. um ethos dialógico (que busca compatibilizar dois
componentes, o universalismo e o respeito à diferença).
Já outro filósofo,
também espanhol, José Antonio Marina afirma que “a
culminação da inteligência é a ética
e não a ciência.”
Nos anos recentes estamos assistindo a uma
mudança na idéia de inteligência.
Até agora era mais importante resolver equações
complexas que:
organizar uma
adequada relação de casal;
viver uma família feliz; ou
construir relações
justas e solidárias.
Assinala Marina que a grande
criação da inteligência é a ética,
porque é o
melhor repertório de soluções que os humanos
encontraram para resolver os
problemas da dignidade e a felicidade.
Pergunta-se: por que ter um comportamento
ético? E se responde: porque só
assim se tem soluções para os complexos problemas da
existência humana.
Atualmente temos problemas
econômicos, sociais e políticos muito sérios e
complexos:
guerras de alta e baixa intensidade (Iraque, Colômbia);
desperdício (um exemplo: 75 bilhões de dólares
adicionais a serem dedicados
ao esforço bélico dos Estados Unidos no Iraque; outros
exemplos: 17 bilhões de
dólares dedicados nos Estados Unidos a alimentos de
animais domésticos; 50
bilhões de dólares gastos em cigarros na Europa e 105
bilhões em bebidas
alcoólicas);
um enorme consumo de energia por parte de muito poucos, 20 por
cento dos habitantes do planeta consomem quase 80 por cento da
energia total;
há 1,2 bilhão de pessoas vivendo com menos de um
dólar diário; apesar do
enorme desenvolvimento das comunicações 65 por
cento da população mundial nunca
fez uma chamada telefônica;
40 por cento da população mundial não tem acesso
à eletricidade;
50 por cento das crianças do mundo está subalimentadas;
os engarrafamentos de trânsito nos Estados Unidos custam mais de
US$ 100
milhões ao ano.
Há alguns anos atrás, no
Relatório de Desenvolvimento Humano 1998 do PNUD –
Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas para a
América Latina,
apresentou-se um quadro que deveria chamar nossa
indignação moral senão nosso
espanto. Nele fazia-se referencia às prioridades mundiais
As prioridades mundiais?
(gasto anual em dólares)
Ensino básico para todos $ 6
bilhões*
Cosméticos nos Estados
Unidos $ 8 bilhões
Água e saneamento para
todos $ 9 bilhões*
Sorvetes na
Europa $ 11 bilhões
Pré-natal para todas as
mulheres $ 12 bilhões*
Perfumes na Europa e nos Estados Unidos $ 12 bilhões
Saúde e nutrição
básicas $ 13 bilhões*
Alimento para animais domésticos $ 17
bilhões
na Europa e USA
Recreação de empresas no Japão $
35 bilhões
Cigarros na Europa $ 50 bilhões
Bebidas alcoólicas na
Europa $105 bilhões
Drogas estupefacientes no
mundo $400 bilhões
Gasto militar no
mundo $780 bilhões
*Estimativa do custo anual adicional de conseguir o acesso universal a
serviços sociais básicos em todos os países em
desenvolvimento.
Fonte: RELATÓRIO SOBRE DESENVOLVIMENTO HUMANO 1998 p.37 (sobre
várias
fontes)
Algo nos acontece no plano
ético se é que nossas atuais prioridades
são estas.
Hoje se aborda insistentemente no discurso
economicista hegemônico a
necessidade de privatizar os bens públicos, inclusive os bens
ambientais. Mas
vale a pena se perguntar: por que o bem será protegido
melhor se ele tem
proprietários (por exemplo, as espécies ameaçadas,
os bosques nativos, as
biomassas pesqueiras, os elefantes, as araucárias, etc.)? e se
é mais rentável
substituir (vacas por elefantes, pinhos por araucárias, etc.)?
Pelo contrário, no avanço
ético da humanidade nos distanciamos da lei da
selva, aprendemos a necessidade da proteção do mais
fraco, que as coisas
funcionam por direitos.
O que chamamos felicidade é
satisfazer harmonicamente nossas duas grandes
necessidades: a de dignidade, expressa no bem estar ou qualidade de
vida; e a de
liberdade, o poder de ampliar nossas possibilidades ou capacidades,
como diria
Amartea Sen.
Embora a economia se encarregue de dizer
que sua função é administrar
recursos escassos e que funciona sem valores, isso é falso,
ninguém age sem
interesses ou valores. Pode ser que esses valores não nos
agradem, não sejam os
que queríamos, mas estão aí. São expressos
nas prioridades mundiais às quais fiz
referência.
Temos que decidir que tipo de vida queremos
viver. Segundo creio, teríamos
que suprimir o consumo de coisas que são altos consumidores de
energia, de
reorientar recursos à educação, de buscar um tipo
de desenvolvimento mais
pessoal e menos tecnológico, de educar-nos para desfrutar de uma
vida mais rica,
mais plena, mais atrativa, mais prazerosa, de reduzir os
horários de trabalho,
de alcançar um desenvolvimento mais vivível, com vida
familiar, com vida
afetiva.
Porém estamos sendo muito
estúpidos. Nos queixamos e temos a solução muito
perto de nós, valorizamos muito mais o que não temos, o
que perdemos, e não
valorizamos o que temos, estamos fomentando sistematicamente a
desvalorização de
tudo o que temos.
Devemos voltar a valorizar o que temos: o
ar, a água, os bens, nosso lar, as
plantas, a comida, as árvores, as aves, as
relações de trabalho, as amizades, as
conversas.
Há pessoas que dizem que quando
estão deprimidas vão às compras. Por que
temos mais do que necessitamos? Porque estamos aborrecidos, porque
temos que
preencher nosso tempo e prover de sentido nossas vidas (vazias?).
Precisamos desenvolver o sentimento
ecológico, valorizar o que temos: ar,
água, paisagem, plantas, jardins, a união da vida com os
espaços vazios de um
prédio, um pavimento ou um areal.
Algumas digressões acerca da
democracia.
A democracia, dizia alguém, não me lembro quem, é
como o ar, enquanto a
temos não nos damos conta da sua existência, mas quando
nos falta, como
sofremos e como sentimos sua ausência.
Um destacado filósofo colombiano,
Estanislao Zuleta (1995), escreveu algumas
profundas reflexões sobre a democracia que quero compartilhar
com os senhores.
Ele afirmou que a democracia implica na
aceitação de um certo grau de
angústia, já que a democracia é a
aceitação da angústia de ter que decidir por
si mesmo, e o pensar por si mesmo é mais angustiante do que
acreditar cegamente
em alguém. Daí então que a democracia é
frágil. Sua fragilidade procede da
dificuldade em aceitar o grau de angústia que significa pensar
por si mesmo,
decidir por si mesmo e reconhecer o conflito.
Zuleta nos ressaltou que a democracia
implica igualmente da modéstia de
reconhecer que a pluralidade de pensamentos, opiniões,
convicções e visões de
mundo é enriquecedora e que a própria visão de
mundo não é definitiva nem segura
porque a confrontação com outras poderia obrigar-me a
mudá-la ou a enriquece-la.
A verdade não é necessariamente a que eu proponho
senão a que sai do debate, do
conflito; por tal razão o pluralismo não faz nada mais
que aceitá-la
resignadamente senão como o resultado de reconhecer o fato de
que os seres
humanos, não funcionam em uníssono como os
relógios. É a existência de
diferentes pontos de vista, partidos ou convicções que
nos deve levar à
aceitação do pluralismo com alegria, com a
esperança de que a confrontação de
opiniões melhorará nossos pontos de vista. Em tal
sentido, para Zuleta, a
democracia é modesta, uma disposição para mudar,
disposição para a reflexão
autocrítica, disposição para a ouvir seriamente ao
outro.
Afirmo assim mesmo que a democracia implica
igualmente na exigência do
respeito. O respeito significa levar a sério o pensamento do
outro: discutir com
ele sem agredir-lo, sem violenta-lo, sem ofende-lo, sem desacreditar
seu ponto
de vista, sem aproveitar os erros que cometa ou os maus exemplos que
apresente,
tratando de saber que grau de verdade tem, mas também ao mesmo
tempo significa
defender o próprio pensamento sem cair no pequeno pacto de
respeito às nossas
diferenças. Em um debate levado seriamente não há
perdedores: quem perde ganha,
sustentava um erro e saiu dele; quem ganha não perde nada,
sustentava uma teoria
que resultou corroborada.
Também Zuleta diz que devemos
reconhecer que no ser humano existem profundas
tendências arcaicas contra a democracia e, se queremos defende-la
realmente,
devemos começar por reconhecer uma de suas maiores dificuldades:
nossas origens
não foram democráticas. Para ele, em
conseqüência a democracia é amadurecimento.
A democracia não nos vem espontaneamente, senão como
resultado de uma conquista,
como aceitação da angústia, da dúvida, da
dúvida sobre si mesmo e de passar pela
“prova da dúvida”.
Nos assinalou assim mesmo que somos
dogmáticos quando não fazemos o esforço
de demonstrar. “A demonstração é uma grande
exigência da democracia porque
implica na igualdade: demonstra-se a um igual; a um inferior se
intimida, se
ordena, se impõe; a um superior se suplica, se seduz ou
se obedece. A
demonstração é uma lição
prática de tratar aos homens como nossos iguais”.
Desafios atuais à democracia.
Na atualidade a democracia enquanto sistema político
próprio das
sociedades políticas modernas, enfrenta um conjunto de desafios
que podem ser
vistos ao mesmo tempo como oportunidades ou como ameaças. Quais
são estes novos
desafios?
1.O tamanho da polis ou o tema da escala
humana.
A crescente expansão que em termos
demográficos tiveram todas as sociedades
modernas sobrepujou o antigo conceito da polis aristotélica, que
era o espaço no
qual se conformou a noção e o exercício da
democracia. Nossas cidades, e que
dizer de nossos estados nacionais, já não têm a
escala que tinham as cidades
gregas de onde surgiu a democracia e de onde foi possível
desenvolver formas de
democracia direta ou participativa. Nada do público (dos
assuntos da polis) era
alheio aos cidadãos que habitavam as cidades-estado gregas.
Outhwaite e
Bottomore afirmam claramente que: “a democracia da antiga Grécia
foi democracia
direta: o povo governava reunindo-se em assembléia e tomando
diretamente as
decisões políticas básicas”. No entanto é
necessário não esquecer que a
democracia grega se constituiu sobre a existência de escravos.
Não obstante, os processos de
globalização e a conformação de
mega-estados no
estilo da União Européia, tornam ainda mais
improvável o retorno às formas de
democracia direta. Isso em razão de que a diversidade,
complexidade e magnitude
dos problemas sobre as quais se deve tomar dia a dia decisões e
que constituem
habitualmente o exercício do acionar democrático, fazem
impossível que elas
sejam adequadamente oportunas, eficazes, informadas, legítimas e
impessoais,
atributos estes entre outros que as decisões públicas
devem ter em sociedades
complexas como as nossas.
Surge aqui a necessária
consideração da tensão e da complementaridade que
deve existir entre o micro e o macro, entre o global e o local, entre o
societário e o comunitário (ou a escala humana).
2. A emergência do multi- cultural.
Experimentamos nos anos recentes uma
rápida passagem de sociedades
mono-culturais, onde predominava uma cultura única quase
hegemônica, para
sociedades multi-culturais, onde coexistem muitas culturas.
Passamos de
sociedades com visões relativamente compartilhadas, que se
traduziam em uma
possibilidade mais fácil de alcançar consensos, para
sociedades onde coexistem
pessoas que sustentam crenças e concepções muito
diversas, o que dificulta a
elaboração de acordos e a construção de
consensos.
3. O aumento do capital social.
Em nossas sociedades ocidentais
incrementou-se notoriamente o capital social
disponível entre seus cidadãos. O aumento dos
níveis educativos da população e a
quase desaparição do analfabetismo; não só
aumentou a população que pode e deve
participar nos processos eleitorais, incrementado assim a cidadania
eleitoral,
mas também ao tornar possível o acesso generalizado
à informação disponível, em
sociedades que se comunicam preferencialmente por meio da leitura e
escrita,
aumentou os níveis de consciência a respeito dos direitos
humanos e as
expectativas em relação à melhoria da qualidade de
vida da população, gerando
por sua vez uma crescente demanda participativa.
4. O problema não resolvido da
inclusão
Até duas décadas,
quando se falava dos pobres fazia-se referência à
pobreza
por déficit de integração, ou melhor, aquela parte
da população que não havia
conseguido integrar-se à vida moderna. Os extremamente pobres
eram os que não
tinham experimentado um desenvolvimento cultural e do trabalho como o
solicitado
pelo processo social moderno, e constituíam uma certa
porcentagem da sociedade
que se aglomerava na periferia das grandes cidades.
Em síntese, aquela
marginalização resultava da reorganização
da economia e da
estrutura social que se verificava pela expansão das formas
industriais e
estatais modernas, que foram deslocando e desarticulando o tecido
social e as
atividades de produção, de distribuição e
de consumo tradicionais, afetando
especialmente os grupos sociais indígenas, camponeses e
artesanais. Como o setor
moderno crescia e manifestava capacidades para absorver forças
de trabalho, e
satisfazer assim as demandas de consumo, produzia-se adicionalmente um
efeito de
atração para muitos que abandonaram prematuramente suas
formas de vida
tradicionais e emigraram para as cidades em busca de outros modos de
vida. Mas
os que não conseguiram integrar-se, não podendo tampouco
dar, no contexto
marginal urbano, um uso a suas capacidades e destrezas de trabalho
correspondentes a esses modos de produção camponeses e
artesanais, só
encontravam na ação social do setor público
possibilidades de sobrevivência e de
reinserção. Sua atividade social tendia a expressar-se,
então, fundamentalmente
em termos reivindicativos e de pressão; mas também
evidenciaram capacidades
próprias na solução dos problemas mais urgentes,
especialmente no âmbito da
habitação mediante a ocupação de terrenos e
o sistema de autoconstrução e
melhoria progressiva da moradia.
Essa pobreza e marginalização
residual seguem existindo na atualidade. Mas o
mundo dos pobres é hoje muito mais numeroso, porque tem sido
engrossado por uma
massa de pessoas que, havendo anteriormente alcançado algum grau
de participação
no mundo do trabalho e no consumo e na vida moderna, logo
experimentaram
processos de exclusão: demissões, perda de
benefícios sociais, subemprego, etc.O
que aconteceu é, em síntese, que o processo industrial e
estatal moderno, não só
não pode absorver todas as forças de trabalho e as
necessidades sociais que
cresciam junto com a população, mas inclusive
começou a expelir uma parte
daqueles que havia em algum momento incorporado. Este fenômeno da
exclusão não
só afeta aos setores populares e ao mundo operário, mas
também as camadas
sociais médias que se viram rapidamente empobrecidas pela
perda de emprego e de
benefícios sociais que haviam mantido em muitos casos por
períodos prolongados.
A pobreza em que caem estas famílias acontece em ocasiões
extremamente duras,
pois a experimentam pela primeira vez e não desenvolveram as
estratégias de
sobrevivência cotidiana que são naturais à
experiência da pobreza vivida desde a
infância. Verifica-se também um processo que pode ser
entendido como de inversão
da ascensão social de uma geração a outra: muitos
jovens do povo que receberam
educação moderna e que adquiriram por seu
intermédio as destrezas necessárias
para inserirem-se no mundo do trabalho, não encontram as
oportunidades de
fazê-lo e recaem na pobreza.
As condições de vida dos pobres
urbanos.
Como ressaltaram Alguacil e outros (2000:19), na Espanha, a pobreza
urbana se caracteriza por constituir:
- um processo dinâmico
- que gera
carências graves de recursos materiais ou simbólicos
- e limitações severas
no grau de participação social
- que se traduz, portanto, na privação do
exercício efetivo de direitos socioeconômicos
básicos
- gerando uma crise de
identidade psicossocial,
- degradação de laços e vínculos
sociais,
- isto
é, como produto de uma segregação intensa devido
à sociedade
“exclusógena”,
- surge um círculo vicioso do qual é muito
difícil sair,
inclusive de uma geração a outra.
É muito provável que estas
características sejam também as de nossas
sociedades latino-americanas.
No entanto, vale a pena se perguntar: De que pobreza estamos falando?
Sobre o conceito “pobreza” há tantas aproximações
como pessoas opinando
sobre ela. As concepções mais tradicionais ou
convencionais a associam, ou com
preguiça ou com dotação escassa de capacidades
humanas. A pessoa é pobre, ou
porque é preguiçosa ou pouco inteligente, ou tem
pouca iniciativa.
Outras concepções vinculam a
pobreza à incapacidade de acesso aos bens e
serviços disponíveis socialmente para a maioria das
pessoas, em um determinado
período histórico. De modo que a pobreza é algo
relativo aos padrões de
qualidade de vida que é possível esperar de uma sociedade
em um momento
específico de sua história.
As noções mais elaboradas e
com maior capacidade explicativa, entendem a
pobreza como uma condição de marginalidade e/ou de
exclusão gerada pela forma
como se concentra a produção e a
distribuição da riqueza gerada. Ou a
conceitualizam como uma situação de
alienação, como a incapacidade de dispor do
valor gerado pelo trabalho próprio.
Hoje coexistem no mundo e em nossos
países diferentes tipos de pobreza.
Vivemos atualmente um subdesenvolvimento do crescimento e ao mesmo
tempo um
crescimento do subdesenvolvimento: países que se empobrecem
apesar de sua
crescente riqueza material, e um aumento absoluto dos pobres tanto nos
países
pobres como nos países ricos.
Um primeiro tipo de pobreza é a
pobreza tradicional, frente à qual reagimos
normalmente e que afeta uma proporção
importantíssima da população mundial.
Pobreza que inclusive se agravou notavelmente devido a sua
deterioração
relativa; pobres que se transformaram em miseráveis
devido à modernização dos
países ou das regiões onde eles vivem. Diversos estudos
deram conta do fato
anterior e nossos países não estão alheios a esta
realidade.
Não obstante, também as
sociedades ricas ou os segmentos ricos das sociedades
pobres, além de seguirem produzindo pobreza tradicional - a
crescente brecha no
consumo dos ricos e dos pobres em um mundo em que as mercadorias
industriais
determinam as necessidades básicas, estão lém
disso produzindo novas formas de
pobreza, os dejetos lançados no ambiente pelos crescentes
níveis de produção,
seu preço oneroso e a falta de eqüidade nos custos sociais.
Este segundo tipo de
pobreza é a “pobreza modernizada”. Vivemos também um
empobrecimento que é
produto da modernidade: dietas com excesso de proteínas animais
que se traduzem
em doenças cardiovasculares; concentração urbana
excessiva que gera estresse e
doenças respiratórias; excesso de
individualização que provoca solidão,
isolamento, alcoolismo e dependência de drogas. Como o
assinalou Ivan Illich,
“a pobreza modernizada aparece quando a intensidade da
dependência do mercado
alcança um certo limiar; subjetivamente, quem sofre a
mutilação de uma
dependência dominante das riquezas da produtividade industrial,
experimenta como
conseqüência uma opulência frustrante. Simplesmente os
priva da liberdade e do
poder de agir com autonomia, de viver criativamente; os confina
à sobrevivência
pelo fato de estarem inseridos nas relações do mercado. E
precisamente porque
padecerem desta nova impotência de modo tão profundo, a
expressam com
dificuldade”.
Esta é uma forma de pobreza
específica moderna, que se expressa de múltiplas
formas: a impotência cidadã; a perda do gosto pela
auto-valorização frente aos
desafios externos e à angustia interna; o tédio e a
depressão; a necessidade de
“santificação” pelo conhecimento especializado ou
profissional; o “mal estar”
que percorre crescentemente nossas sociedades.
Estas pobrezas são produto dos
fatores internos negativos da modernidade: a
aceleração que consume tanto tempo; a
atenção à saúde que gera doenças
(iatrogenias); a educação estupidificante ou irrelevante;
a destruição da
convivência; o empobrecimento da linguagem; o reducionismo
interpretativo; a
transgressão dos limiares socialmente críticos.
Se olharmos detidamente a
situação de nossos países, veremos que neles
coexistem estes dois tipos distintos de pobreza: a pobreza produto da
carência e
a pobreza surgida da opulência.
Durante os anos recentes se verificou uma
profunda ofensiva ideológica
conservadora no âmbito das idéias políticas,
associada à expansão do pensamento
neoliberal no econômico, o qual tem enfatizado certas
idéias de força, tais
como as de: "liberdade de empresa", "estabilidade das regras do
jogo" ou "o
mercado como o melhor provedor de recursos". Isso tem implicado
em uma enorme
regressão ideológica, que se constata ao observar como se
enfatiza o respeito
irrestrito ao direito de propriedade sobre o exercício da
soberania popular ou
do auto-governo, ou quando se introduz o conceito do direito à
iniciativa
econômica e não se reconhece o direito ao trabalho
ou a um salário digno.
O modelo de sociedades que vem sendo
retratado a partir das concepções neoliberais, eleva a
capacidade e a competitividade individual a elemento constituinte da
vida individual e social, declarando obsoleto qualquer outro
fundamento. Tudo isso faz com que a resposta frente ao Mercado,
quer seja de emprego, de formação, de
proteção ou de consumo, desgaste as possibilidades de
integração dos que não estão ao
nível das exigências da competição, dos mais
fracos nesta corrida. Por conseguinte, essa integração
é a chave para resolver adequadamente as carências que
acompanham a exclusão.
Em seu reverso, isto vem acompanhado de uma
mudança nos papéis do Estado ante
as exigências que estas mudanças sociais evidenciam. Estas
mudanças se expressam
em uma falta de compromisso social com o desenvolvimento dos grupos
mais fracos,
frente às exigências do crescimento do denominado bem
estar, isto é, da economia
sob o suposto de que o crescimento dará para todos. Como
resultado, está se
atenuando sua falta de compromisso com os processos de exclusão,
através de
medidas que “subsidiam” ou mitigam os “custos” do crescimento. Mas,
tais medidas
de subsídio ou atenuação, ao não tomarem
parte das ausentes e necessárias
estratégias de integração, terminam consolidando
os processos de dependência e
reafirmam os conceitos de gastos inúteis para pessoas
inservíveis.
Neste contexto, fez-se praticamente
equivalente a condição de cidadão à de
consumidor, e conseqüentemente promoveu-se e difundiu-se
maciçamente a idéia de
uma liberdade econômica ancorada no direito de escolher entre um
bem ou outro.
No entanto, para muitos só existe um pseudo-direito de escolha.
Inclusive os
graus de eleição reais e sua autonomia são
reduzidos substancialmente, já que ao
serem manipulados pela mensagem da propaganda e da publicidade,
terminam
escolhendo não aquilo realmente necessitado
senão aquilo induzido como
“necessidade”.
No entanto, também o crescimento
econômico, a abertura aos mercados externos
e a modernidade se traduzem para aqueles que se beneficiam diretamente
destes,
em empobrecimento. Pobreza que se expressa no materialismo que percorre
nossa
cultura; na busca desenfreada de ostentação e
desperdício; na perda de virtudes
que foram próprias do acervo cultural nacional, tais como certo
grau de
ascetismo e de prudência no falar e no agir; na violência
que percorre grande
parte de nossa vida urbana; na corrupção que
começa a transformar-se em um modo
de vida; ou no desencanto juvenil.
É necessário constatar que
será impossível responder à pobreza e à
dinâmica
que marginalizante e excludente de nossas sociedades se não for
a partir de uma
perspectiva que afete e alcance elementos substanciais de nosso modelo
social. A
quebra de elementos fundamentais estruturais da sociedade, como o
trabalho; a
permanência de uma distribuição dos bens
econômicos, sociais e culturais,
desigual e injusta; a crise do Estado de Bem estar, isto é, da
decisão social de
proteger os direitos básicos; a crise de valores e de
solidariedade (não só como
crise de valores morais, senão como crise de estruturas
sociais); a incapacidade
de integração do excluído, que progressivamente
vai conformando uma sociedade
“dual”, paralela...; tudo isso “explode” socialmente e se manifesta na
“nova”
pobreza, e na “persistência” da pobreza de sempre.
Vemos assim que em nossos
países, apesar de seus “aparentes” sucessos em termos de
crescimento econômico,
subsistem e além disso se agravam os três tipos de
pobreza: a material, a moral
e a espiritual.
Correndo o risco de simplificar
excessivamente, tentarei resumir em cinco
afirmações minha visão sobre a pobreza:
1) A pobreza de uns, as maiorias, é
o produto normal da riqueza de outros, as
minorias.
2) A pobreza enquanto processo é o
resultado natural da “ocidentalização” do
mundo, isto é, tal resultado pôde originar-se depois do
enfrentamento
capitaneado pelo Ocidente contra culturas distintas às quais
impõe sua visão
universal e valorização das coisas.
3) Não existe só a pobreza
material ou de subsistência, mas muitos tipos de
pobreza, alguns dos quais são ainda piores que aquilo que
é tradicionalmente
chamado pobreza.
4) É absolutamente inviável e
insustentável um mundo no qual subsistem
desníveis tão excessivos de ingressos, de consumo e de
qualidade de vida como os
que existem hoje entre ricos e pobres. Dito de outro modo os pobres
constituem
hoje uma “ameaça” ao bem estar, segurança e
tranqüilidade dos ricos e inclusive
dos não pobres.
5) A única solução
definitiva à pobreza é de tipo moral. É imperativo
desenvolver uma nova consciência ecológica e
solidária que nos permita transitar
de uma ética de auto-referência a uma ética de
alter-referência.
Os cenários possíveis para a
humanidade, de subsistir às severas situações de
pobreza que hoje se vive são:
1) O incremento das ações
repressivas contra a pobreza-ameaça, o que
implicará, entre outras operações de “limpeza
social” - do tipo dos
procedimentos de assassinatos de crianças de rua que se
realizam de forma já
habitual em muitas cidades da América Latina, ou assassinatos de
camponeses ou
colonos.
2) Um incremento das
migrações de áreas rurais para áreas
urbanas,
incrementando-se assim a magnitude das megalópoles urbanas e a
dimensão da
pobreza urbana, com todas suas seqüelas.
3) Um aumento das migrações
ilegais de pobres, dos países pobres para os
países ricos e um fortalecimento dos circuitos de delito que
manipulam esse tipo
de migração, obrigando a aumentar as ações
repressivas, abusos e violência nas
fronteiras dos Estados Unidos, Europa, Japão, e inclusive
algumas economias
emergentes.
4) Um notável aumento da xenofobia e
do racismo, e também da “aporofobia” no
interior dos países ricos e de conflitos raciais latentes, tanto
nos países
ricos como nos países pobres.
5) Tudo que foi dito anteriormente conduz
inevitavelmente, não a uma redução
dos gastos militares e policiais para liberá-los, e de esse modo
destiná-los a
políticas de superação da pobreza, mas a seu
aumento devido à pressão política
dos setores ricos sobre o Estado para obrigá-lo a
fornecer-lhes maior
proteção.
Isto é o resultado da incapacidade
que tem nossa cultura como mecanismo de
adaptação harmônico e eficiente ao meio ambiente
natural e social.
A cultura é forma de
incorporação das demandas energéticas e da
administração
dos fluxos energéticos requeridos para a vida individual e
coletiva. Esta pode
ser eficiente ou ineficiente, adequada ou inadequada, harmônica
ou inarmônica. A
partir desta perspectiva, a solução para a pobreza
só será possível quando nossa
cultura desenvolve a capacidade de processar adequadamente a energia
necessária
para manter sua continuidade no tempo, e isso implica numa
profundíssima mudança
moral.
Um modelo conceitual
É necessário, portanto, encontrar e propor pautas de
ação para enfrentar
as duas modalidades da pobreza citadas, daí a necessidade de
assumir um modelo
conceitual de pobreza que dê coerência discursiva e
técnica a algumas
possibilidades alternativas. O modelo proposto se afirma nos seguintes
supostos:
1. A pobreza significa uma
situação de negação do exercício de
direitos
básicos; portanto revela-se como uma realidade complexa cujos
fatores se
inter-relacionam e condicionam mutuamente.
Superada a ruptura das carências de
direitos básicos, a luta contra a pobreza
deixou de ser um problema puramente “distributivo”, isto é,
simplesmente
“assistencial”, para que os pobres disponham de um mínimo
social-vital, para
constituir-se em um processo de consecução da plena
autonomia das pessoas
pobres.
Se a luta contra a pobreza fosse
considerada como um problema puramente
distributivo, ficaria reduzida a ações de natureza
assistencial, que
distribuiriam as possibilidades que o crescimento econômico
pudesse oferecer.
Em nossa atualidade, a
consecução da autonomia pessoal e social exige o
exercício dos direitos econômicos e sociais fundamentais,
e não simplesmente a
cobertura das carências elementares. Isto é certamente uma
necessidade; mas ao
mesmo tempo, um requisito para exercer a própria
responsabilidade, os direitos
fundamentais.
2. A consecução da autonomia
pessoal não pode ser desligada das situações de
exclusão que as realidades da pobreza implicam; e tudo isso
não pode ser
separado das condições e fatores sociais que permitem ou
impedem o
desenvolvimento dos direitos fundamentais.
Uma vez superadas estas rupturas
que separavam as carências dos fatores sociais que as geram e das
condições de
exercício dos direitos sociais, as ações frente
à pobreza tratam de construir as
condições de exercício dos direitos fundamentais,
que capacitem os afetados pela
pobreza como sujeitos sociais: isto é, que potenciem sua plena
integração
social. Em outras palavras, sua plena liderança e
participação social.
Ante as diversas formas de exclusão,
somente a cobertura de carências não
implica em que os afetados se transformem em sujeitos que participam na
vida
econômica, social e cultural. De modo que
integração frente a exclusão implica
participação. Portanto a luta contra a pobreza
revela-se como uma ação que deve
construir as condições de integração social
dos pobres.
Este é o aspeto decisivo daquilo que
se deve entender como luta contra a
pobreza. Na análise da realidade da pobreza ficou
claramente estabelecido que
não se trata somente de carências econômicas, mas
igualmente de exclusão e
segregação social, cultural e do trabalho: de uma
situação sem consciência de
pertinência social, nem de grupo; com uma consciência que
“normaliza” sua vida
na própria pobreza. Por isso, se a luta contra a pobreza
não aborda este
conjunto de condições que a conformam, não
criará as possibilidades de
superá-la. Deve-se assumir desde as
condições estruturais até as
condições
sociais mais próximas aos sujeitos dos direitos. E tais
condições devem ser
assumidas em uma situação de desigualdade.
E não só isso, pois se a
ação frente à pobreza não abordar “as
condições da pobreza”, será uma ação
que se refere somente ao pólo da pobreza, sem referência
ao outro pólo, a sociedade. Portanto, objetivamente falando e
mais além da intenção, será uma
ação que colaborará para a
manutenção dos pobres em sua pobreza.
Portanto, não podemos desligar os
aspectos da pobreza, os próprios pobres,
das situações e condições sociais em que
são produzidos, a erradicação da
pobreza não será só, nem principalmente, trabalhar
pelos pobres, mas propugnar e
criar as condições que lhes torne possível a
saída do estado de pobreza e
marginalização, de exploração e
exclusão social; em resumo, o exercício de seus
direitos, de sua autonomia e de sua participação social.
3. A pobreza não expressa uma crise
puramente econômica, mas a dinâmica
exclusão do atual processo social, com a aparição
de novas pressões e
manifestações de exclusão social.
A pobreza sofreu uma mudança
básica em seu interior, o que obriga a superar
uma concepção residual da mesma: não se trata de
um fenômeno periférico a
respeito da atual dinâmica social, mas que é
intrínseco ao desenvolvimento da
própria dinâmica desta sociedade, e é
expressão e elemento catalisador do que
constitui sua problemática mais profunda.
Por tal razão, superada a ruptura
entre a pobreza como realidade residual por uma parte, e os processos
sociais de empobrecimento por outra, a luta contra a pobreza é
uma ação de construção da plena autonomia e
da plena integração; não só constitui uma
ação para a participação social, mas
além disso, para o desenvolvimento social no qual o tipo de
desenvolvimento socioeconômico é igualmente decisivo para
vencer a pobreza. Isto é, uma distribuição de bens
ante as carências, é uma ação
necessária, mas destinada ao fracasso e a manter-se na pura
distribuição assistencial, se o desenvolvimento
socioeconômico não incorporar o desenvolvimento dos
direitos, da autonomia dos sujeitos pobres, fracos, e os traduzir em
formas socioeconômicas viáveis que possibilitem o
exercício dos direitos básicos.
Por outro lado, uma ação de
integração social sem modificação das
condições que geram a exclusão, se manterá
só na exigência de obrigação de
contraprestação por parte dos sujeitos receptores das
“ajudas” de integração. Ou seja, será um fracasso.
Nossa sociedade revelou-se como uma
sociedade que gera pobreza; na qual a
pobreza é um “sintoma” revelador da desigualdade social, por
isso a criação de
condições sociais que tornem possível erradicar a
pobreza, exige a mudança
social, a transformação das estruturas sociais que
encarnam a desigualdade
social e os valores que concentram a não solidariedade.
Como reverso do anterior, a luta contra a
pobreza não pode ser algo residual,
mas central à política socioeconômica, pois sua
finalidade expressa o mais
central em toda política social, já que a
conseqüência da plena autonomia e da
plena participação social é que exige a
criação de condições sociais a partir
das quais os sujeitos mais fracos possam exercer plenamente seus
direitos.
De tudo que foi visto deduz-se que
não é qualquer forma de intervenção que
converte a mesma em um elemento qualitativo de mudança das
interconexões do
sistema e de transformação das estruturas que o
sustentam. A forma adequada tem
suas exigências e a primeira delas é uma mudança
epistemológica na compreensão
da própria intervenção social.
Isto é, do mesmo modo como tentamos
desvendar com que critérios lemos a
realidade, podemos dizer que é preciso desvendar com que
critérios fazemos a
realidade. Nossas formas de pensar e fazer o mundo ancoram-se em uma
concepção a
respeito de nós mesmos e a respeito de nossas necessidades, a
isso nos
referiremos em seguida.
Necessidades e fatores de
satisfação
A primeira questão chave para entender adequadamente em que
consiste a
pobreza, está em não confundir o crescimento das coisas
com o desenvolvimento
das pessoas. O “desenvolvimento” se expressa no “bem estar”, e
está na qualidade
de vida, o que por lógica nos remete às necessidades.
Deveríamos ser capazes de
determinar que teoria das necessidades sustenta nossas
ações.
A experiência parece dizer-nos que
nossas necessidades são ilimitadas. Mas
esta concepção responde a uma experiência segundo a
qual as necessidades vêm
definidas pelo crescimento das coisas. Crescimento ilimitado,
necessidades
ilimitadas. Bem, isto responde à domesticação
cultural de nossa maneira de ver o
mundo, que faz com que “necessitemos” infinitamente, produzindo uma
espécie de
“dissonância cognitiva”.
Razão pela qual necessitaremos uma
nova conceitualização das necessidades se
quisermos quebrar o esquema progressista que exclui aqueles que
não podem seguir
o ritmo de crescimento econômico.
Uma segunda chave está em uma nova teoria
das necessidades que quebre a identificação de
“necessidade” com “satisfator”
propiciada pela cultura dominante.
A este respeito em um trabalho que
publicamos faz já mais de quinze anos,
identificamos a existência de nove necessidades humanas
fundamentais. A saber:
Subsistência, Proteção, Afeto, Entendimento,
Participação, Lazer, Criação,
Identidade e Liberdade.
A relevância desta segunda chave
consistirá, pois, em precaver-se do erro de
não diferenciar entre o que são propriamente necessidades
do que são
satisfatores dessas necessidades. É o satisfator, não a
necessidade, o que é
historicamente mutante, o que confere um caráter
histórico à nossa existência e
o que tem traços de ilimitado. No entanto as necessidades
são finitas e
limitadas como é limitada, por exemplo, nossa corporeidade (e
outros aspectos do
existir).
A terceira chave será, portanto,
distinguir entre Necessidades, Satisfatores
e Bens. As necessidades constituem um nível determinado quase
que absolutamente
por nossa própria biologia, e por isso tem todos os
traços da permanência. Isto
é, são atributos essenciais que mudam ao ritmo da
evolução da espécie.
Os satisfatores, pelo contrário,
são as formas mediante as quais a
necessidade se manifesta e se faz presente, são de
caráter histórico e mudam ao
ritmo da evolução cultural. Por tal razão
são mutantes. Os satisfatores, por
isso, são formas de ser, ter, fazer, e estar (interagir), de
caráter individual
e coletivo, que conduzem à atualização das
necessidades; por tal razão se
relacionam com as estruturas sociais e econômicas.
Os bens são os elementos
históricos concretos que configuram o satisfator em
cada conjuntura histórica e podem estender o alcance do
satisfator muito além de
si mesmo. Portanto, os bens econômicos são objetos e
artefatos que permitem
afetar a eficiência do satisfator, alterando assim o limiar de
atualidade de uma
necessidade, seja em sentido positivo ou negativo.
A quarta chave estará em ver as
necessidades em toda sua complexidade,
riqueza e virtualidade. As necessidades revelam o ser das pessoas,
já que este
se faz presente através daquelas em sua dupla
condição existencial: como
carência e como potencialidade. Compreendidas em um sentido
amplo, e não
limitadas à mera subsistência, as necessidades patenteiam
a tensão constante
entre carência e potencialidade.
Então, se vemos as necessidades
somente como “carências”, nos resignamos a
vê-las como uma espécie de “expulsão” do
Paraíso. A carência é como o castigo,
como o vazio que produz dor. Deve-se vê-las também como
“possibilidade” de
desenvolvimento de nossa virtualidade, de todas nossas potencialidades.
É
imprescindível recuperar esta dimensão, porque em nossas
necessidades está o
exercício mais pleno do humano. E deixamos de ser seres inermes
e passivos, para
transformar-nos em seres ativos, que podem construir, pois assim pode
surgir a
atividade e a possibilidade. E dela poderá surgir: a
liderança, a
participação.
A quinta chave está em mudar o modo
de operar: desde os bens aos
satisfatores. Por um lado nossas necessidades são algo
“acontecido”; isto é, são
algo dado, não mudam. Por outra parte, o âmbito dos bens
também é algo dado, em
razão dos limites biofísicos de nosso planeta.
Então, qual é o âmbito de nosso
trabalho? Os satisfatores; isto é, o âmbito do
histórico - cultural -
antropológico. E a partir aí se pode comparar os bens e
as necessidades: o
dado.
São os satisfatores que definem a
modalidade dominante que uma cultura ou uma
sociedade imprimem às necessidades. Os satisfatores não
são os bens econômicos
disponíveis mas se referem a tudo aquilo que, por representar
formas de ser,
ter, fazer e estar, contribui para a realização de
necessidades humanas. Podem
incluir, entre outras, formas de organização, estruturas
políticas, práticas
sociais, condições subjetivas, valores e normas,
espaços, contextos,
comportamentos e atitudes; todas em uma tensão permanente entre
consolidação e
mudança.
Posto que os satisfatores são
culturais, isso lhes permite associar-se a
nosso ser, e vice-versa. E isso se orienta na linha do desenvolvimento,
e não do
crescimento. Enquanto que os bens, ao serem instrumentos que só
podem transmitir
o ter, se situam, portanto, unicamente na dimensão do
crescimento.
A suposição de uma
relação direta entre necessidades e bens econômicos
permite a construção de uma disciplina objetiva, tal como
a economia tradicional
supõe sê-lo. Isto é, de uma disciplina mecanicista
em que o suposto central é de
que as necessidades se expressem através da demanda que, por sua
vez, está
determinada pelas preferências individuais em
relação aos bens produzidos.
Por isso, pretender estabelecer uma
relação direta entre necessidade e bem, é
estabelecer uma relação necessidades - recursos, como a
que rege o modelo
prestativo: aquele que tem bens dá ao que tem necessidades.
São as prestações
técnicas que funcionam setorial e verticalmente, desconectadas
do sistema de
necessidades e reduzidas a uma "objetivação" das
demandas. (receptor = “objeto”
da prestação).
A sexta chave será ver que tipo de
satisfatores utilizamos. Pois podemos
utilizar satisfatores que em vez de potenciar a
satisfação das necessidades,
destroem o sistema de necessidades (o próprio ser humano), isto
é, destruidores;
ou que as desvirtuem, isto é, que distorcem as possibilidades
das mesmas, ou
seja, inibidores ou pseudo-satisfatores. Ou pelo contrário,
satisfatores que
sejam sinérgicos, isto é, que a realização
das necessidades não seja a meta,
senão o motor do próprio desenvolvimento. E que por isso
promovam o trânsito do
objeto de prestação ao sujeito participante e agente; o
trânsito do pontual ao
processo histórico e coletivo; e do individual, ao grupo,
à comunidade, ao
território.
De acordo com tais chaves seria urgente e
imprescindível realizar uma
avaliação das políticas macro e micro, das
ações, dos programas, dos fundos, dos
projetos, etc., com que estamos atualmente realizando o combate contra
a pobreza
e a exclusão, a partir de re-analisar que tipo de satisfatores
estamos
usando.
Gandhi afirmou que: “Temos suficiente para
as necessidades de todos, mas
nunca para os desejos de uns poucos”, parafraseando-o, eu gostaria de
afirmar
que: são os desejos (extravagantes e exagerados, inclusive
ofensivos para a
pobreza) de uns poucos que geram a pobreza de muitos. A dignidade
humana não só
se vê impedida pelo subconsumo no qual se encontram
muitíssimos seres humanos,
mas também pelo super-consumo de outros. O super-consumo
é também uma forma de
indignidade humana. Deveremos portanto transitar a partir de
nossos atuais
conceitos e formas de medição de linhas de pobreza,
até a instalação em nosso
imaginário político e cultural de uma linha da dignidade
humana onde se
encontrem o subconsumo e o super-consumo, como foi formulado na Linha
da
Dignidade “Línea de Dignidad” proposta pelo Programa Cone-Sul
(Conosur)
Sustentável (2003) ou no “Pacto Global sobre o Consumo” sugerido
por Adela
Cortina (2002). Deessa maneira creio que se poderá
avançar mais facilmente em
transformar os problemas da fome, a miséria e a pobreza de um
problema social em
um problema político, como sugeriu o Presidente Lula.
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Martínez, Emilio (2002) “Aporofobia”
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Zuleta, Estanislao (1995) Elogio de la
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Sustentable) Línea de dignidad (Linha de
Dignidade), Programa Chile Sustentável, Santiago.
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