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CONFERÊNCIAS PLENÁRIAS
Estado nacional, cidades e desenvolvimento

6 de junho de 2002, 8h30


Marta Suplicy
(Prefeita de São Paulo)

O modelo político-econômico atual favoreceu uma integração subordinada do Brasil à economia internacional, em detrimento do desenvolvimento nacional. Nossa responsabilidade com a gestão local nos leva a questionar o papel de um projeto nacional de desenvolvimento e o seu potencial para viabilizar a expansão de políticas públicas mais amplas, que sejam coordenadoras e potencializadoras das políticas executadas na esfera municipal.

Estando comprometidos com o desenvolvimento de um outro modelo de gestão, pautado pela inclusão social e pela participação cidadã, precisamos conciliar a busca por uma maior competitividade e por um maior crescimento econômico com o acesso indispensável à cidadania e ao trabalho para os paulistanos desempregados e praticamente desprovidos de políticas públicas.

Apesar do endividamento herdado das administrações anteriores, que consome 13% do orçamento municipal, a Prefeitura tem assumido a luta pela melhoria da qualidade de vida e pela inclusão social, com iniciativas de várias ordens e o maior programa da transferência de renda da América Latina. O governo municipal, com todas as limitações, tomou a iniciativa de favorecer o crescimento da economia local através da ampliação dos gastos sociais, do combate à corrupção, de incorporar a cidadania nas decisões sobre o orçamento municipal, e de buscar parcerias com o setor privado na perspectiva de reconstrução da cidade e da redução da desigualdade.

Entretanto, estes esforços são promovidos num quadro de estagnação econômica, de juros elevados, elevação do desemprego e restrição do poder de consumo. Além disso, a situação é agravada por um federalismo selvagem que arrecada cada vez mais impostos para pagar a dívida pública, recentralizando recursos que antes estavam em mãos dos governos locais. A chamada responsabilidade fiscal imposta pelo governo federal é uma irresponsabilidade social.

Apesar desse panorama sombrio, a atitude da Prefeitura é de protagonismo. A partir das iniciativas locais, experiências inovadoras têm se transformado em propostas nacionais, algumas em referências internacionais, como é o caso do Orçamento Participativo, das experiências de micro-crédito dos programas saúde da família, de segurança alimentar, de renda mínima acoplada à educação.

Também são importantes as políticas voltadas para a articulação internacional, pois o Mercosul, a Alca ou os acordos com a União Européia, por exemplo, têm impacto direto sobre as cidades. Finalmente, é necessário recuperar a ação reguladora do Estado para direcionar os esforços de desenvolvimento em benefício dos excluídos. As cidades, como centros de inovação, devem lutar por uma nova institucionalidade nacional e internacional que potencialize, ao invés de sufocar, nossos esforços.


Tarso Genro
(Ex-coordenador da Frente Nacional de Prefeitos e ex-prefeito de Porto Alegre)

A realidade atual impõe novas exigências aos Estados nacionais, que são ainda mais complexas para países como o Brasil, situados na periferia da dinâmica do capitalismo atual e que não completaram o processo de consolidação de normas jurídicas e da capacidade de regulação que os Estados europeus, por exemplo, realizaram para poder viabilizar a garantia de direitos para todos os cidadãos.

Os Estados nacionais precisam ser mais flexíveis e adequar-se às novas exigências para a produção e reprodução de nossas sociedades, para garantir a coesão social e uma nova regulação voltada para o desenvolvimento humano e sustentável. A reconstrução do Estado nacional só pode ser dar em relação com o mundo. Essa relação pode se dar de dentro para fora ou de fora para dentro, mas ela é inevitável.

É a natureza do desenvolvimento que se quer e a antevisão do modo de vida que se almeja que pauta o modelo de desenvolvimento. Hoje a força normativa do capital financeiro leva, por exemplo, a uma crise das instituições republicanas. O controle dos meios de comunicação ameaçam constantemente a sociedade com a manipulação da opinião pública. Vivemos, em maior ou menos grau, a crise de legitimidade das instituições do Estado moderno contemporâneo.

A fragmentação social e a crise das instituições republicanas produzem uma crise estrutural da forma Partido, que passa a não ter mais a capacidade de abrangência e nem de trabalhar as tensões da sociedade no sentido da sua universalização. As múltiplas formas de organizações da sociedade civil são hoje esta representação fragmentária, ainda que legítima. Esta situação aponta, no limite, para a possibilidade de que as representações políticas sejam feitas por uma constelação de organizações não-governamentais.

O indivíduo, cada vez mais, rompe com seus laços comunitários, com o sentimento de pertencer a uma coletividade, e se relaciona com os demais pela via do consumo, numa perspectiva individualista e orientada pelos valores de mercado. A insegurança presente e com relação ao futuro torna-se uma constante nas preocupações dos cidadãos.

Na verdade, a saída para essa crise passa por enfrentarmos uma nova dialética entre o local e o global. Enfrentar a necessidade de construir um novo sistema histórico que reverta a globalização excludente e os valores puramente mercantis. Neste processo, precisamos enfrentar os riscos do localismo ingênuo, que acredita que se possa resolver tudo no âmbito local, e também da globalização ideologizada, que apresenta a internacionalização do mercado como sinônimo de progresso.

A cidade demanda um novo aparato institucional para a conexão de suas políticas locais com o global. Para assumir o papel de sujeito nesse novo cenário, o governo municipal precisa construir um projeto de destino da cidade, em que esteja inscrita sua perspectiva de inserção no global. Aí a cidade pode se tornar um sujeito ativo, mas de toda forma ela necessita da mediação de um projeto de Estado nacional.


Massimo D’Alema
(Ex-primeiro-ministro, presidente do partido Democratici di Sinistra e deputado, Itália)

A questão mais importante neste século da globalização é qual será o caminho e a evolução da democratização e como isso poderá incidir sobre o modelo de desenvolvimento. Há uma relação estreita e indissolúvel entre democracia e desenvolvimento para um governo de transformação que busque um novo equilíbrio entre política e economia, contrariando a idéia errônea de que a globalização deve abolir a política e seguir os critérios da economia.

A apologia da globalização, realizada pelos neoliberais, sugere que o mercado pode oferecer uma época de paz e abundância. Essa proposta é negada pelo crescimento das guerras e da pobreza. Por outro lado, tanto a esquerda quanto a direita demonizam a globalização como se este processo fosse reversível e fosse possível renacionalizar as estratégias econômicas e de desenvolvimento.

O problema central é quem governa esse processo. É preciso construir um suporte político para um processo de reformismo radical com a perspectiva de redução da desigualdade, de construção da paz e da segurança. Só se pode vencer a crise atual com o combate efetivo à pobreza e à intolerância, além da defesa da diversidade cultural.

A reorganização da democracia, a criação de instrumentos políticos novos de regulação é o que pode permitir o reformismo radical. Na Europa foi o compromisso entre o desenvolvimento e a democracia que permitiu o surgimento do welfare state, que se realizou com base em políticas formuladas pelo Estado nacional com o apoio dos partidos políticos.

É um erro considerar o fim do Estado nacional. O que se impõe é a construção de mecanismos políticos que fortaleçam as instancias federativas, tanto internacional quanto nacionalmente. É o caso da União Européia para a qual os Estados nacionais transferem poderes. Os Estados nacionais devem ser mais fortes para poder garantir a democracia e o nexo entre o local e o global. O Estado nacional é um nódulo na relação local – global. Esse processo democrático é o que irá determinar a natureza do desenvolvimento.

O modelo de desenvolvimento atual é impulsionado pelo FMI e favorece os investimentos das grandes corporações transnacionais. Privilegia-se a estabilidade dos indicadores macro-econômicos e propiciam-se processos de aprofundamento da desigualdade e os desequilíbrios, tanto entre regiões quanto internamente, nos países.

A articulação dos poderes é a única forma de reconstrução do welfare state. Estados nacionais sem articulações regionais ou internacionais e além disso expropriados de instrumentos de política de desenvolvimento tais como moeda e financiamento, estão muito longe das instituições globais e, ao mesmo tempo, muito longe dos cidadãos.

A América Latina vive o paradoxo de que a redução da capacidade dos seus Estados induzirem políticas de desenvolvimento acontece ao mesmo tempo em que, na região, se afirmam governos democráticos. Este fenômeno promove a fratura do pacto social e nessa crise surgem novos atores.

Nesse cenário, o papel das cidades, assim como o papel da sociedade civil, torna-se mais importante. Pode-se mesmo afirmar que uma nova classe dirigente surge de baixo para cima. Nesta crise da política é de se notar que os governantes municipais são os mais reconhecidos e legitimados. As cidades tornam-se novos atores da política, da economia, da inovação democrática.

Não estamos falando de um localismo ingênuo ou de uma proposta de socialismo em uma só cidade ou região. Isso é ilusão. O localismo também tem sua face de direita, que reage à globalização buscando mobilizar a comunidade local criando novos racismos e novas xenofobias.

Cooperação, diálogo, construção conjunta de experiências podem se orientar no sentido da redefinição do papel do Estado nacional e de articulações regionais e internacionais. A União Européia é nossa experiência modelo de construção formas democráticas supranacionais, necessárias também na América Latina e com as quais a UE deve se comprometer e apoiar.

Por fim, creio que é preciso enfatizar a importância de multiplicar as formas de cooperação e favorecer o fortalecimento de uma sociedade civil organizada, nacional e internacional. Trata-se de restituir o espaço para a política e colocar o homem no centro das preocupações acerca do desenvolvimento. Colocar a economia a serviço deste modelo novo de desenvolvimento que precisamos criar.





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